sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Escafandro e a Borboleta

   É só uma ideia, eu sei, mas tendo ultrapassado um pouco os meus 30 anos de idade, começa a martelar em meus pensamentos o que de importante para a sociedade, em qualquer setor, quer seja político, econômico, artístico ou mesmo no âmbito de saúde pública, a minha simples, e não tão pretensiosa assim, existência poderá ou haverá de deixar. Eu sei, é só uma ideia, mas será mesmo que a maioria das pessoas passa por esta vida sem deixar algo de importante para as outras pessoas? Será que somente alguns são os abençoados e se tornam imortais, aqui mesmo, entre os homens? Você que está lendo pode até estar pensando: - Puxa, com somente 30 e pouquinhos anos uma pessoa se preocupar com isto; tem tanto tempo pela frente ainda... Será? Há tantos exemplos de grandes indivíduos que passaram por este mundo e que se tornaram tão gigantes que foram quase capazes de atingir a 'capa do céu'... E muitos deles, muitos mesmo, não viveram tanto tempo assim e nem por isto deixaram de ser eternos entre nós enquanto reverberação de sua obra, tamanha é a importância que ainda damos para esta. E será que tem a ver com a questão da imprensa, da tão citada 'mídia'? Será que muitas vezes o indivíduo que se tornou eterno nem era tão magnífico assim, e que tudo se deveu por causa do impulso de críticos, de jornais, ou coisas do tipo? Nos até agora poucos anos de minha existência, já tenho percebido que a imensa maioria daquilo que só se torna grande graças à propaganda de mídia, e não muito pela competência do criador, acaba se tornando igual a 'música de verão': vem, chega ao nosso conhecimento, tem o seu papel de entretenimento, muitas vezes bem executado, mas acaba fadado ao esquecimento, e anos depois nos recordamos daquilo, quando nos recordamos, de forma nostálgica, mais para ajudar a memória por alguma outra coisa que se deu na mesma época em que você teve contato com o mesmo. Mas, atenção, não estou, de forma alguma, desmerecendo o papel da mídia, da imprensa; não se trata disto! Muito pelo contrário: ela tem um papel tão importante no sentido de nos trazer ao conhecimento obras, criações, em qualquer âmbito que se possa imaginar, e ser a porta de entrada para muito do que nos acaba moldando; o problema é que, muitas vezes, não há um filtro, e muita coisa importante e digna de nota não chega ao nosso conhecimento, até porque devem existir aos montes. 
   Bom, mas a ideia desta postagem é manter o foco no criador e sua criação. Referia-me ao fato de que, para alguns, pode gerar uma certa angústia quando se pensa que existem tantos imortais, pessoas grandes, que ao longo de nossa vida vão alimentando a nossa personalidade, moldando o nosso ser, e que muitos de nós, que ainda vivemos, não deixamos a tão citada 'marca' para a posteridade; para outros, a preocupação pode ser simplesmente seguir a rotina, e viver esta breve temporada por aqui apenas para esta vida mesma, no máximo pensando em mais uma ou duas gerações dos seus (a questão da família será também comentado mais adiante). Apesar de buscar sempre levar uma vida mais equilibrada, sou forçado a expor que a minha balança pende mais para o primeiro caso (mas acrescento que a família é algo muito importante para mim). Em sendo assim, tentarei citar brevemente alguns exemplos que alimentam este anseio (sempre de forma benéfica, claro, nunca de forma doentia), e estes três criadores de que tratarei são como algumas das estrelas que muito brilham no firmamento, e que, apesar de já terem perecido, brilharão por muito e muito tempo diante de nossos olhos. Há apenas um detalhe: nenhum deles chegou aos 40 anos de idade!!!
   O primeiro exemplo é o de um dos compositores românticos mais importantes que habitaram este planeta: Fryderyk Franciszek Chopin. Este compositor polonês, ainda em vida, foi famoso em Paris, na França, e acabou tendo o seu nome 'afrancesado' para Frédéric François Chopin. Ele nasceu em 1810 na vila de Zelazowa Wola, pertencente ao ducado de Varsóvia, onde cresceu e teve sua formação musical, mas por conflitos no país, acabou deixando a cidade aos 20 anos como parte da grande emigração polonesa devido ao levante de 1830 contra a Rússia. O compositor criou a balada instrumental e aperfeiçoou muitas das peças para piano, como as sonatas, mazurkas (uma dança folclórica polonesa), os noturnos (suas peças mais aclamadas e famosas), as valsas, as polonesas (uma dança polonesa de andamento um pouco mais lento), os estudos, os improptu (uma espécie de execução livre ao piano, como um improviso inspirado pelo momento), os scherzos e os prelúdios. Compôs ainda alguns rondós, canções e variações, algumas obras que se classificam em uma miscelânea (como bolero, fantansia, barcarolle, berceuse, ecossaise, entre outros). O conjunto de sua obra é muito importante para a história da música, e é de uma beleza ímpar no campo artístico. Chopin era um músico retraído, introspectivo, e se apresentou em grandes teatros poucas vezes em sua vida, preferindo sempre apresentações menores em pequenos salões, e a sua música é o próprio piano; depois de sua existência, o piano nunca mais foi o mesmo... Em sendo assim, existem poucas obras de orquestra compostas por ele; mas, destas, duas são extremamente importantes e de um brilho magnífico: os dois Concertos para piano (aqui, só uma rápida explicação para leigos: Concerto é toda peça de orquestra em que o foco é um instrumento que executa uma parte solo, e o solista é o 'herói' da apresentação, e em geral recebem cachês astronômicos, por isto, existem concertos para piano, concertos para flauta, concertos para oboé, concertos para violino, concertos para clarinete, etc.; Sinfonia é toda peça de orquestra em que não se destacam instrumentos em particular, e a composição se dá para a orquestra como um todo. Nos Concertos, em geral há três movimentos: o primeiro de andamento um pouco mais rápido, o segundo mais lento e o terceiro novamente mais rápido, muitas vezes o mais rápido; nas Sinfonias, em geral há quatro movimentos: um primeiro vivaz e jovial, um segundo lento e lírico, um terceiro dançante e um quarto impetuoso. Apesar destas definições, existem variações mesmo nas estruturas e no número de movimentos em ambas as peças).


Frédéric François Chopin (1810-1849)

   Dos seus dois Concertos, o primeiro em definição, mas o segundo em cronologia de composição, é intensamente lírico e majestoso. Quando compôs o Concerto para Piano n. 1 - Opus 11, em E menor (Mi menor), ele ainda nem havia chegado aos 20 anos de idade completos. Ele o dedicou a um pianista alemão muito famoso na época, Friedrich Kalbrenner, e o apresentou em Varsóvia antes de deixar a cidade rumo a Paris, em 1830. O Concerto tem três movimentos: o primeiro é em andamento Allegro maestoso, o segundo em Larghetto (o famoso Romanze) e o terceiro em Vivace (o Rondo). As expressões em italiano usadas para descrever os andamentos referem-se à velocidade de execução dos compassos da partitura; assim, o Allegro é mais rápido que o Larghetto, que é mais lento que o Vivace. As performances desta peça geralmente duram em torno de 40 minutos. Sem querer me ater ao lado muito técnico da composição, é válido dizer que o primeiro movimento tem três temas que vão sendo executados e retomados ao longo da execução, e é muito belo; o segundo movimento, o mais bonito e sublime de todos, parece realmente acalmar a alma (o próprio compositor, em uma de suas cartas, expressa sua intenção com este movimento, que era 'escrever algo contemplativo do ponto de vista de um olho imóvel que repousa sobre uma paisagem adorada e que traz à alma belas lembranças, como uma noite de primavera ao luar'. Nesta ideia, o movimento lembra a estrutura de um Noturno); o terceiro movimento é baseado na dança folclórica polonesa Krakowiak (da região da Cracóvia) e exprime grande vitalidade.


Túmulo de Chopin, no Cimitière du Père Lachaise, em Paris, França
 
   Ao longo de sua vida após a composição destas duas peças para orquestra, Chopin dificilmente voltou a compor algo que não fosse para o piano solo. A maior parte de suas peças é muito famosa, deleita mesmo os ouvidos menos iniciados, e é fantástico como se vai descobrindo a beleza de sua obra quando se escuta algumas destas peças que antes não se conhecia, quando se vão descobrindo cada vez mais a fundo as suas criações. Quando morreu, vítima de complicações de tuberculose, tinha apenas 39 anos... Foi enterrado em Paris, lá no mesmo cemitério de Oscar Wilde e de Jim Morrison. E, repito, ele não tinha nem 20 anos completos quando compôs o referido Concerto... Deixo um vídeo do Concerto abaixo, que é grandioso em sua totalidade, mas se os 40 minutos da execução não couberem no seu tempo, leitor, assista ao vídeo seguinte, que é só o sublime segundo movimento, o Romanze.






   O segundo exemplo que pretendo comentar um pouco é o de uma autora que morreu aos 30 anos de idade, mas ainda assim se eternizou entre nós. Numa época em que se escutava música por fita K7, ainda morando em Mossoró, uma banda paulista começava a despontar no exterior e no nosso país com rock cantado em inglês. A primeira música do Angra que me chegou aos ouvidos nem era deles, mas pertencia ao álbum de estreia do grupo, chamado de Angel's Cry. Naquela época, em 1994, quando tinha 13 anos, escutei Wuthering Heights e rapidamente fiquei muito tocado pela música; um rock leve executado pelo Angra, com uma voz muito complexa mas bem cantada por Andre Matos, e, numa época em que a internet era coisa de grandes empresas pelo mundo, logo fui pesquisar sobre tudo da música, checar a letra, de onde vinha, o que queria dizer o título, etc.. E isto foi muito mais difícil do que é hoje... Por um tempo, gostei muito do grupo, e hoje acho este CD e os dois que o seguiram muito especiais; depois, a banda se desfez, a formação original mudou e nem acompanhei tanto o desenrolar dos fatos e os álbuns seguintes. Mas, não gostaria de falar da banda, nem da música, mas de Emily Jane Brontë, que nasceu em 1818 em Thornton, Yorkshire, na Inglaterra. Esta escritora inglesa, de uma família famosa de autores (incluindo sua irmã, Charlotte Brontë, que escreveu o famoso romance Jane Eyre), escreveu um único romance: Wuthering Heights. O título vem de uma mansão nos campos de Yorkshire na história. No Brasil, foi traduzido como O Morro dos Ventos Uivantes; esta tradução já nos apresenta uma espécie de atmosfera para o romance, e este título sombrio é muito como a história é de fato. Quando comecei a ler sobre a letra da música, logo quis adquirir e ler o romance. Os versos da canção são como uma espécie de resumo da trama do livro, e isto eu descobri ao lê-lo.


Emily Brontë (1818-1848)

   Embora tenha começado a escrever poemas e outras pequenas estórias cedo, por volta dos 13 anos, Emily Brontë só escreveu Wuthering Heights entre 3 e 2 anos antes de sua morte, e o livro foi publicado um ano antes desta. Ao lançamento, gerou um sentimento controvertido entre os críticos por causa da sua narrativa de episódios de crueldade física e mental. É, hoje, considerado um clássico da Literatura Inglesa, e geralmente julgado superior a Jane Eyre. Não é o meu desejo discutir sobre a trama do livro, até porque é tema para uma outra postagem, mas o livro é tão grandioso, de um imaginário tão elaborado e até mesmo com requintes de sobrenaturalidade que, ao final, é como se os personagens principais, Heathcliff e Catherine Earnshaw (Cathy), tivessem de fato existido. Este é o poder da boa Literatura!!! O livro inspirou filmes, músicas, um musical, três óperas, ballets, programas de rádio e TV. É eterno, sem dúvida!


Capa de uma das edições de Wuthering Heights

Capa da adaptação de 1992, num filme com Juliette Binoche e Ralph Fiennes

   Depois, descobri que a música Wuthering Heights foi composta por Kate Bush, uma cantora inglesa, e, em 1978, na sua própria voz (ela com somente 19 anos), com o lançamento do seu primeiro single, atingia o topo das paradas britânicas. A complexidade da música está essencialmente na tonalidade vocal, e a melodia algumas vezes sombria com a letra consistente com a estória do livro dão a atmosfera perfeita para o romance. É brilhante! Deixo duas versões da música: a do Angra, de que gosto mais, e a de Kate Bush.








   Quando morreu, vítima também de tuberculose, Emily Brontë tinha somente 30 anos, como já dito.
   O último dos exemplos é bem mais recente, e também me lembro bem da primeira vez que me deparei com ele. Renato Manfredini Júnior, eternizado como o gigante Renato Russo, nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Quando ainda em Mossoró, minha querida cidade-natal, por volta dos 13 anos, trabalhando num jornal local, a Gazeta do Oeste (sim, nesta época eu era envolvido com Informática, e trabalhei no jornal dando assistência aos computadores que eram utilizados nos diversos setores do mesmo; hoje, considero que foi um período muito importante da minha vida... Mesmo nesta época, queria ser médico, e nunca mudei de opção depois que escolhi esta profissão; mas, no jornal, tive contato com várias pessoas, de todas as idades, e eu era o mais jovem entre eles. Lá, tive contato com pais de família, com outros jovens, com o editor-chefe, com políticos, com o pessoal da tipografia, com a forma como o jornal é criado, diagramado, impresso, com as matérias que são notícia em si, com outras que são criadas em colunas de opiniões, com as novidades no meio artístico, locais, nacionais e internacionais... Fiz grandes amigos. Existia, inclusive, um funcionário do jornal cuja vida podia virar um livro... hehe Na impressão, trabalhando nas madrugadas, um esforçado e jovem funcionário era apaixonado por Xadrez, e vi o seu crescimento no jogo ao longos dos poucos anos em que estive por lá, hoje sendo um grande mestre local, talvez até regional, do esporte... Bom, mas esta é uma outra história...), eu escutei pela primeira vez ao Legião Urbana. A primeira música que ouvi foi Que País é Este; ora, para um adolescente ouvir um rock nacional apelativo e consistente com os questionamentos dos jovens diante da política no país, aquilo era demais!


Renato Russo (1960-1996)

   Com o meu primeiro salário, comprei uns 3 CDs do grupo e, daí por diante, passei a conhecê-los a fundo, virando um grande fã, e me impressionava como Renato Russo sabia expressar perfeitamente o que qualquer jovem à época gostaria de dizer. Fui percebendo ao longo da carreira do grupo que da busca pela verdade consistente, dos questionamentos existencialistas e do sofrimento da alma do ser humano é que surgiram as mais belas músicas compostas pelo poeta!


Capa do álbum V, do Legião Urbana

   Como suas músicas eram marcantes! E o português tão bem aplicado, tão sonoro, como se a mostrar porque é uma das línguas mais belas do mundo, com frases realmente perfeitas! Muito prominente, sem dúvida! Vítima de complicações da AIDS, como todos sabem, Renato Russo faleceu em 1996, aos 36 anos. Não preciso dizer a marca que ele deixou... Embora seja muito difícil eleger as músicas preferidas da banda (eu me arrisco em três: Metal Contra as Nuvens, Andrea Doria e Giz), para os fins desta postagem, uma de suas músicas do álbum V é das mais brilhantes, e tudo o que ele disse nela é muito profundo, ainda que dito de forma simples, e são constatações que geram remitentes reverberações. A música? O Teatro dos Vampiros. Na minha humilde opinião, os versos mais bem colocados são: 'Este é o nosso mundo / E o que é demais nunca é o bastante / E a primeira vez é sempre a última chance / Ninguém vê onde chegamos / Os assassinos estão livres; nós não estamos'. Deixo a versão original, de estúdio, com um andamento um pouco mais rápido e o solo de entrada meio trovadoresco e uma versão do Acústico da banda. Ambas são muito bonitas!






   Bom, após uma breve discussão com os estes três exemplos, de grandes nomes que passaram rapidamente por este mundo mas deixaram uma profunda marca, que irá ainda reverberar por muito e muito tempo, há um outro lado, não o lado oposto ou inverso, mas um outro ponto de vista. Com esta vontade que muitos têm de fazer alguma coisa realmente importante para as outras pessoas, para a sociedade, espanta-me muito o fato de muitos de nós não cultuar as gerações anteriores de nossas próprias famílias, de nosso sangue. Eu mesmo nem bem sei quem foi o meu bisavô, e menos ainda o que veio antes dele... Quantas coisas importantes eles não devem ter feito, criado! Não tenho dúvida de que, sim, fizeram algo de muito importante em suas existências... E é no mínimo estranho que o reconhecimento não comece com uma boa e sólida base dentro da própria linhagem. Eu imagino como se os nossos antepassados e a nossa descendência fosse uma espécie de linha vertical, enquanto a nossa relação e feitos para os outros indivíduos da sociedade fosse uma linha horizontal, e acredito que quanto mais consistente e maior for o verdadeiro conhecimento desta linha vertical, mais podemos nos expandir na linha horizontal... Isto parece que não é importante? Então, como poderíamos simplesmente querer deixar grandes feitos se nem ao menos existíssemos, e para que possamos existir, alguém veio antes de nós... Só existimos graças aos nossos antepassados imediatos, mediatos e distantes...
   Quando assistindo algumas das aulas de um dos maiores filósofos da atualidade, o Professor Olavo de Carvalho, arrepiei-me quando ele falou uma vez que a humanidade ter prosperado e vingado é quase um milagre: ora, somos um dos poucos seres que, ao nascer, somos COMPLETAMENTE dependentes de nossos geradores. Nascemos como um HD vazio, formatado, sem saber andar (não podemos caçar), não sabemos falar, ler ou escrever, e se deixados sem amparo, facilmente perecemos... É verdade! Com um pouco de material genético dos nossos antecedentes, que vem passando e se fragmentando cada vez mais de geração a geração, sei que, apesar de não ser possível conhecer muitos dos meus antepassados, do mesmo jeito que herdamos traços, jeitos e manias de nossos pais, muito poderíamos entender de nossas próprias percepções do mundo conhecendo quem foram os que vieram antes de nós. Se isto não parece tão importante assim, por que será que se sabe tão bem e a fundo a linhagem dos reis e rainhas de muitos dos países da Europa (onde eles foram mais importantes)? E por que muitas vezes há uma espécie de conotação divina nestas linhagens? Ora, para os pesquisadores, isto faz parte da História, e este tipo de conhecimento ajuda a entender muito de um povo, da cultura de um país, do que se pode melhorar, etc.. Então, sabendo mais da minha antecedência, certamente isto ajudará a desenvolver a compreensão de mim mesmo enquanto indivíduo, a minha História. E acho que isto é muito importante! Acho que tão grande quanto a angústia de saber se irei deixar ou não algo grande para a sociedade é a angústia de não saber muito dos meus antecessores um pouco mais distantes! Este deve ser um objetivo para uma vida melhor! É mais ou menos como se quiséssemos deixar alguma marca para as outras pessoas, ser imortal, sem saber do que foi deixado antes por nossos familiares... E certamente encontraremos muitas grandiosidades! E será que dá pra perceber que sem esta espécie de culto à nossa própria família a vida fica com um certo vazio, perde um pouco do sentido? Para mim, acho que sim.


O Prof. Olavo de Carvalho, um dos maiores filósofos da atualidade

   Existiu um historiador francês chamado de Numa Denis Fustel de Coulanges, que nasceu em Paris em 1830 e deixou sua magnum opus: A Cidade Antiga, publicada pela primeira vez em 1864. No livro ele mostra a força da religião na evolução política e social da sociedade grega e romana. Na obra, ele vai mostrando como a religião pagã acaba sendo o grande motor do desenvolvimento político-jurídico dos povos citados; os escritos e pesquisas são tão consistentes, tão engenhosos, e a escrita com um estilo primoroso, que é tido como uma das obras-primas do idioma francês no século XIX. E, sabendo que estes povos influenciaram fortemente toda a sociedade do mundo Ocidental, é interessante notar que, no princípio, eles cultuavam a alma dos homens mortos. A religião era doméstica, e cada casa cultuava seus próprios mortos, havendo uma espécie de fogo sagrado como a representar a alma dos seus antepassados; os rituais somente poderiam ser presididos pelo pater de cada família, nunca por alguém de fora. Assim, o pai tinha função de chefe, sacerdote e juiz. Disto decorre que somente ele poderia ser considerado cidadão e, portanto, ter direitos, principalmente o direito a propriedades. A sua principal função era a de cultuar os seus antepassados e de dar continuidade a sua linhagem (o celibato era, portanto, proibido). As cidades antigas, desta forma, poderiam ser comparadas a uma grande família: o seu fundador era cultuado, bem como um ancestral. E a lei somente acabava atingindo aqueles que apresentassem um culto a um antepassado. E daí começam a surgir a ideia de vários deuses e, obviamente, muitos outros delineamentos vão sendo discorridos na obra. Mas percebe-se a importância que se dava aos antepassados, e como isto fortalecia cada um dos povos, cada uma das famílias!


Fustel de Coulanges (1830-1889)

Uma das capas do livro A Cidade Antiga

   Em outro campo da arte, quem não se lembra do filme Inimigo Meu (Enemy Mine), de 1985, dirigido por Wolfgang Petersen? No filme, um homem acaba caindo num planeta estranho após uma guerra entre os humanos e uma raça alienígena, os Dracs. Apesar de serem inimigos, o homem, vivido por Dennis Quaid, e um alienígena, vivido por Louis Gossett Jr., acabam se unindo para sobreviver e se tornam grandes amigos. O filme tem uma trama interessante e muitas discussões sobre o que seria mais importante na vida. Ao longo do filme, um vai aprendendo a linguagem e a cultura do outro, e para passar o tempo, o alienígena recita para o humano toda a sua linhagem... E ele estranha que os humanos não saibam recitar toda a sua linhagem, estranha que isto não seja importante entre os terráqueos. O alienígena acaba ficando 'grávido' (os Dracs se reproduzem de forma assexuada) e vem a falecer no parto, mas antes de morrer faz o humano prometer que levará o seu filho para o planeta natal deles e recitar toda a sua linhagem para que possa ser aceito na sociedade dos Dracs. Interessante que no filme, para ser aceito pela sociedade, os alienígenas precisam saber quem são, de onde vieram, se conhecerem... Isto é realmente interessante!!!


Um dos cartazes do filme Inimigo Meu, de 1985




   Após estas discussões sobre a importância do que deixamos aqui neste mundo, deixe-me tentar fazer a conexão disto tudo com o que se pode ver num grande filme que foi lançado e aclamado em 2007. O Escafandro e a Borboleta (The Diving Bell and the Butterfly, em inglês, e Le scaphandre et le papillon, do original em francês) é baseado em um livro homônimo autobiográfico de Jean-Dominique Bauby lançado em 1997. O filme retrata a vida deste após ter sofrido um grave Acidente Vascular Encefálico (AVE), de forma leiga chamado de derrame, em 8 de dezembro de 1995, tendo, então, 43 anos. Após este AVE ele desenvolve uma condição conhecida como Síndrome de Encarceramento (em inglês, Locked-In Syndrome), em que fica plenamente consciente mas sem conseguir se mexer do pescoço para baixo e sem conseguir utilizar boa parte da musculatura facial, sem conseguir falar ou mexer mesmo a cabeça (ele ouve, enxerga e só consegue fazer um movimento: o de piscar os olhos; no filme, os médicos acabam ocluindo o olho direito devido à má irrigação deste e o risco de infecção). Tendo sido dirigido por Julian Schnabel, e com Mathieu Amalric no papel principal (interpretando Bauby), o filme ganhou dois Globos de Ouro (melhor Filme Estrangeiro e melhor Diretor), ganhou o prêmio de melhor Diretor no Festival de Cannes, prêmios BAFTA e César, além de ter recebido quatro indicações ao Oscar.



Uma das capas do filme O Escafandro e a Borboleta



   O filme é desenvolvido de forma muito interessante. O primeiro ponto-de-vista é a do próprio Bauby, acordando após 3 semanas em coma em um hospital em Berck-sur-Mer, na França. A visão como em primeira pessoa apresenta um neurologista falando para ele sobre sua condição e são apresentados os pensamento de Bauby, que pensa estar falando, mas ninguém o ouve... Uma fonoaudióloga e uma fisioterapeuta acabam desenvolvendo um sistema de comunicação em que o doente possa se tornar o mais funcional possível. Gradualmente, o ponto-de-vista vai mudando, e passamos a ver Bauby em terceira pessoa. Descobrimos que ele foi editor da revista Elle francesa e que ele havia se comprometido com uma editora a escrever um livro sobre O Conde de Monte Cristo, mas de uma perspectiva feminina. Ele decide que ainda irá escrever um livro utilizando esta forma de expressão que ele acaba aprendendo a usar somente piscando o seu olho esquerdo, e uma mulher da editora vem ao hospital vários e vários dias para escrever o que ele vai 'ditando'. No livro, ele tenta explicar como é estar na condição em que ele, naquele momento, se encontra: preso em seu próprio corpo, como se numa espécie de uniforme antigo e capacete de metal como os mergulhadores de altas profundidade usam (o escafandro); outros, ao seu redor, no entanto, acabam ainda vendo o seu espírito livre e vívido, como uma borboleta. Ao longo do filme vão sendo apresentadas lembranças e arrependimentos até o momento do AVE... Vão sendo apresentados também personagens que fazem ou fizeram parte de sua vida (a mãe de seus três filhos, com quem não chegou a se casar, amigos, amante, lembranças de seu pai, etc.). Aí vão se percebendo situações e analogias muito interessantes no filme, o que o torna muito grande, situações que são apresentadas como a mostrar que pessoas próximas e sem a mesma doença que a sua, ou com suas vidas aparentemente 'normais', na verdade apresentam o mesmo 'encarceramento' que ele: por exemplo, um amigo seu que foi sequestrado em Beirute e que é mantido em confinamento solitário por quatro anos, ou o seu pai, que, com 92 anos de idade, é confinado ao próprio apartamento devido a sua fragilidade e prefere não descer quatro lances de escada para sair dele. Ele acaba lançando o livro, escuta algumas críticas e acaba falecendo por complicações de pneumonia alguns dias após a publicação de sua obra.


Julian Schnabel

Mathieu Amalric

   No filme, ainda, o personagem se questiona, em um determinado momento, se aquilo que ele está vivendo é realmente vida, e acaba se convencendo de que sim. E a chegada a esta conclusão é o que funciona, de forma impressionista e tocante, como impulso no filme. Ele, muitas vezes, fantasia vôos à praia, situações eróticas com as profissionais de saúde que cuidam dele, lembra de estar fazendo a barba de seu pai... E estes vôos são a sua mente borboleta se apresentando, fazendo as viagens que seu corpo não pode fazer... No fim, o filme assombra, mas também inspira, pois mostra um homem que ama e deseja, e vemos ele se conectando com a sua própria humanidade. O filme, ao ser apreciado, nos lembra por que a arte perdura através do tempo: para nos dizer quem somos e do que vivemos.


Jean-Dominique Bauby (1952-1997)

Capa do livro Le Scaphandre et le Papillon, de 1997

   Numa outra forma de visualizar o filme, vê-se um indivíduo que é acometido por uma fatalidade mas que não poderá culpar a ninguém, nem mesmo a vida; ora, não foi uma bala perdida que o deixou tetraplégico, nem foi um motorista embriagado que quase lhe tirou a vida e lhe deixou incapacitado fisicamente... Não, foi uma outra fatalidade! Daí, será que vale a pena ficar enraivecido e desgostoso pelo resto dos dias? Acho que por isto o vemos muitas vezes rindo da própria situação no filme, ele encarando os fatos de forma não tão pesada como parece... E, quando ele diz sim à própria condição, e, sim, aquilo é vida, ele resolve cumprir um dos grandes objetivos da vida: se conhecer! E o livro acaba sendo seu grande legado neste mundo! No fim de tudo, a grande mensagem é: esta vida somente acaba quando se morre! Até que este dia chegue, até que aquele momento particular e bem definido se apresente diante de nós, podemos tudo! Tudo mesmo! E, mesmo que ainda não se tenha deixado um grande feito que o eternize entre os homens, a busca pelo conhecimento de onde você veio (a sua linha vertical, a sua linhagem) para se ampliar o alcance de sua relação com as outras pessoas (a sua linha horizontal) pode ser desenvolvida ao longo do tempo, e o grande fruto disto tudo pode ser deixado mesmo pouco antes de se perecer... Esta vida só termina com a morte! Antes disto, tudo é possível! Quando morreu, Bauby tinha 44 anos; e, considerando que ele tinha 43 anos quando teve o AVE, os eventos que acabaram culminando no seu legado para os homens se deram num período um pouco maior que um ano... Mas, como disse no começo desta postagem: isto é só uma ideia.