segunda-feira, 18 de março de 2013

Estudos em Shakespeare - Tragédias - Romeu e Julieta

      Após um mês e meio, volto a tentar enveredar pelo caminho das letras por aqui. Passo por um período de mudança em meu lar e ainda não me instalei definitivamente; mas, a vontade de escrever sobrepuja todas estas mudanças das últimas semanas. No início do ano, tentei traçar metas para 2013 que tento desenvolver incansavelmente, embora outras funções estejam sempre a tomar o nosso tempo, já que este blog é, para mim, uma espécie de trabalho-hobby, e por isto mesmo muito importante e interessante sob o meu prisma, pois me permito escrever por muito gostar de arte e cultura em geral, e sempre tento ver o papel de tudo isto em minha vida, como venho fazendo desde o início deste projeto. O fato é que, entre estas metas, está o de desbravar toda a obra de Shakespeare. Percebam que escrevi a parte mais conhecida do seu nome completo; ora, acho muito pouco provável que alguém não saiba a quem me refiro, mesmo eu só escrevendo uma parte do seu nome. O interesse em estudar toda a sua obra, e tentar registrar e compartilhar com quem se interessar pelo tema como eu, veio do fato de enxergar a importância que tem o seu legado escrito na vida de todos nós, essencialmente nós que vivemos no mundo ocidental. Quando assistindo ao filme/documentário de Al Pacino sobre a peça Ricardo III (o título deste filme é Looking for Richard, de 1996), há um conjunto de pequenas entrevistas a pessoas nas ruas sobre o autor; uma das pessoas entrevistadas é um mendigo, que abrilhanta demais o filme ao responder uma pergunta de Al Pacino. Quando questionado se ele conhecia Shakespeare e o que ele achava do autor, se era importante conhecê-lo, se conhecer sua obra seria importante para a vida, etc., o mendigo responde o seguinte: Shakespeare foi aquele indivíduo que nos mostrou todos os sentimentos, e, mais do que isto, nos ensinou a sentir. Ao ouvir isto de um mendigo, prontamente se percebe a importância que este dá ao dinheiro: nenhuma; a sua riqueza é, no entanto, de uma grandiosidade maior do que a de muita gente. Este trecho do filme reforçou minha obrigação moral de conhecer tudo do autor!


Capa do filme 'Looking for Richard'
   Quando se procura escrever sobre Shakespeare, é válido se perguntar por onde começar. Deixem-me tentar expor o que me impeliu a começar por onde vou começar! Recentemente, assisti a um filme traduzido por aqui de Barão Vermelho. Este é um daqueles filmes biográficos que é revestido de um certo lirismo mas que nos ensina sobre a vida de um grande personagem que passou por este planeta. Vem deste personagem, por exemplo, o título da banda de rock nacional e o nome do local de apresentações que hoje existe no Rio de Janeiro e que foi muito utilizado por Cazuza e sua trupe: o Circo Voador. O personagem de que trata o filme é Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen, piloto alemão que nasceu em 1892 e morreu no ano em que terminou a Primeira Guerra Mundial, 1918. Vindo de família aristocrática, desde cedo foi apaixonado por aviação e se tornou, por seguir fielmente este desejo durante toda a sua vida, o maior piloto de aviação de combate da história da Alemanha e um dos maiores do mundo. No início da guerra, a aviação de combate era apenas uma espécie de esporte para ele, mas ao longo do conflito, ele enxerga os horrores que permeiam todo o combate. A sua maior virtude, ao que consta, foi a coragem (tanto que o seu apelido, o Barão Vermelho, vem justamente de ter pilotado um avião triplano Fokker Dr. I vermelho, justificando que para ele o importante não era ter o elemento surpresa da camuflagem no ar, o que dificilmente seria conseguido com a cor vermelha na fuselagem do avião, mas que seus inimigos soubessem quem os estava atacando e os temessem), mas o grande triunfo de sua personalidade para a posteridade foi particularmente a sensibilidade em reconhecer que a Alemanha não ganharia a guerra mesmo antes de isto realmente acontecer, e que o motivo dos aliados para justificar a guerra talvez fossem mais nobres e menos errados que o dos alemães. Escreve um livro nos anos da Primeira Guerra Mundial, cujo tema é a guerra em si, e vira uma lenda para o seu povo, servindo como inspiração para o Exército Alemão durante o conflito. Tendo adquirido um cargo de comando de todos os aviadores alemães na Primeira Grande Guerra, abdica do mesmo por preferir lutar cada batalha pilotando o seu avião vermelho com sua equipe de aviadores que constituíam o esquadrão que ficou conhecido como Circo Voador. A maturidade e sensibilidade que adquire ao longo da guerra são tocantes, e morre no ar, onde sempre quis exercer a expressão máxima da liberdade humana, abatido por um avião inimigo do piloto australiano Cedric Popkin, em abril de 1918, com somente 25 anos de idade. Após a sua morte, teve seu corpo velado pelo Exército Aliado (ou seja, inimigo), mesmo sendo alemão, e recebeu todas as honras militares por sua grande atuação em combate e um exemplo a ser seguido. Tendo conseguido 80 vitórias em combate aéreo, entrou para a História como o maior ás da aviação alemã, e um dos maiores do mundo. O que me faz refletir profundamente é o sentido de tragédia existente em sua história; tragédia é toda aquela estória em que há um final triste, geralmente com mortes ou coisas do mesmo nível. Mas o que há de interessante nas tragédias é que, geralmente, existe um sentido que deve se completar com o destino chegando para os personagens; é como se o sentido somente se completasse, fosse consistente, se o final viesse a ser triste, como algo que é necessário para a concepção da tragédia. Enfim, é como se outro final não fosse possível! E as tragédias de Shakespeare estão entre suas obras mais famosas ao longo dos séculos. Assim, começarei pelo seu conjunto de obras mais importante: as Tragédias. Destas, a primeira a ser escrita por ele foi Romeu e Julieta. Mas antes de falar sobre ela, permitam-me falar um pouco mais sobre William Shakespeare, o bardo inglês, aquele que nos ensinou a sentir.


Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen (1892-1918), o 'Barão Vermelho'


Fokker Dr. I

   Bom, o escritor inglês de maior influência nasceu em 1564 em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, no meio de uma família bem sucedida de classe média que trabalhava na fabricação de luvas. Chegou a cursar a escola secundária mas sua educação formal não foi além disto. Um dos fatos interessantes em sua vida pessoal foi ter se casado, em 1582 (portanto aos 18 anos), com uma mulher de mais idade do que ele chamada de Anne Hathaway, com quem teve três filhos. Após 8 anos deste casamento, ele deixa sua família e se muda para Londres pleiteando trabalhar como ator e dramaturgo. O sucesso de público e crítica rapidamente o abençoou, e ele acabou se tornando o mais popular dramaturgo da Inglaterra e um dos proprietários do Globe Theater. Sua carreira envolveu a transição dos reinados de Elizabeth I (que reinou de 1558-1603) e de James I (que reinou de 1603-1625), e ele foi um grande favorito de ambos os monarcas. Rico e reconhecido, Shakespeare voltou para sua terra natal, Stratford-upon-Avon, em 1616, ano em que morreu aos 52 anos. Na época em que faleceu, centelhas literárias de renome, como Ben Johnson, consideravam seu trabalho como eterno.


William Shakespeare (1564-1616)


Anne Hathaway

   Suas obras foram compiladas e impressas em várias edições no século que seguiu o de sua morte, e no início do século XVIII a sua reputação como o maior poeta e escritor de todos os tempos a escrever em língua inglesa estava bem sedimentado. Esta admiração sem precedentes recebida por sua obra levou a uma curiosidade intempestiva sobre a sua vida pessoal, mas a escassez de informações biográficas deixou muitos detalhes de sua vida envoltos em uma atmosfera de mistério. Muito se cogitou sobre a autenticidade dos escritos de Shakespeare, mas na ausência de provas críveis em contrário, ele deve ser visto como o autor das 37 peças e 154 sonetos que carregam sua assinatura. O legado do seu trabalho é imensurável, e uma série de peças do bardo parece ter transcendido a categoria de 'brilhante', tendo se tornado tão influente que afetaram profundamente o curso da literatura e da cultura ocidental para sempre.
   Shakespeare não criou a estória de Romeu e Julieta, e nem, de fato, a introduziu no idioma inglês. Um poeta inglês chamado de Arthur Brooke, de quem sabemos apenas que morreu por volta de 1563, teve como único trabalho que ficou para a posteridade o poema laborioso conhecido por The Tragicall History of Romeus and Juliet, de 1562, e este mesmo não era original de todo, tendo sido considerado uma tradução do poema em italiano de Matteo Bandello (1480-1562). Muitos dos detalhes da trama desta peça de Shakespeare são levantadas diretamente do poema de Brooke (inclusive, a apropriação de outras estórias como inspiração para as suas peças é bem característico do bardo inglês). O uso de material existente previamente como fonte para as peças não deve ser considerado, contudo, uma falta de originalidade; na verdade, em vez disto, os leitores devem notar como Shakespeare, artesanalmente,  utiliza o material de suas fontes e cria uma nova compreensão da tradição literária no qual trabalha. A versão dele para Romeu e Julieta, por exemplo, é bastante distinta daquelas dos seus predecessores em muitos e importantes aspectos: a sutileza e a originalidade dos seus personagens (Shakespeare praticamente criou quase que totalmente o personagem Mercúrio), o ritmo intenso da ação da peça, que é comprimida de nove meses para quatro dias frenéticos, um enriquecimento poderoso dos aspectos temáticos da estória, e, acima de tudo, um uso extraordinário da linguagem, a marca registrada do estilo shakespeareano. Outro fator interessante é que a peça de Shakespeare não somente apresenta uma semelhança com as obras em que se baseia como é, de fato, bastante similar quanto ao enredo, ao tema e ao dramático fim da estória de Píramo e Tisbe, contada pelo grande poeta Ovídio na sua obra Metamorfoses. O bardo, inclusive, bastante ciente da similaridade, inclui uma referência a Tisbe em Romeu e Julieta. Esta peça foi escrita sob profundo conhecimento por parte do poeta de que ele estava contando uma estória antiga, bastante clichê e alvo fácil para paródias. Escrevendo Romeu e Julieta, Shakespeare, então, implicitamente se comprometeu com a tarefa de contar uma estória de amor a despeito das grandes forças que ele sabia que agiam contra o seu sucesso. Através da incomparável intensidade de sua linguagem, o bardo foi extremamente bem sucedido neste esforço, tendo escrito uma obra-prima que é universalmente aceita na cultura ocidental como o arquétipo da estória de amor.
   Resumidamente, o que se passa na peça é o seguinte. Nas ruas de Verona, outra briga irrompe entre os servos das famílias nobres rivais, Capuleto e Montecchio. Cidadãos, indignados com a violência constante, derrotam as facções em conflito e o príncipe Escalo, o governante de Verona, tenta evitar novos conflitos entre as famílias, e decreta a morte para qualquer indivíduo que vier a perturbar a paz da cidade no futuro. Romeu, filho do chefe dos Montecchio, corre para seu primo Benvólio, que já havia percebido aquele deprimido em um bosque de sicômoros. Depois de alguma insistência pelo seu primo, Romeu confessa estar apaixonado por Rosalina, uma mulher que não corresponde às suas afeições. Benvólio o aconselha a esquecê-la e encontrar uma outra, mais bonita, mas Romeu fica desanimado com a ideia. Enquanto isto, Páris, um parente do príncipe, pretende casar-se com Julieta; o pai desta, Capuleto, embora feliz com a ideia, pede que ele espere dois anos, já que ela ainda não tem nem 14 anos. Capuleto organiza um baile de máscaras, tradicional na cidade, e convida, entre outros, Páris, esperando que ele, aos poucos, conquiste o coração de Julieta. Romeu e Benvólio, ainda discutindo sobre Rosalina, encontram o servo de Capuleto que detém a lista de convidados para o baile. Benvólio sugere que eles frequentem a festa, pois isto permitirá que Romeu compare sua amada a outras mulheres de Verona. Romeu concorda em ir para a festa, mas somente porque Rosalina, nome que ele lê na lista de convidados, estará lá. Na casa de Capuleto, a jovem e bela Julieta fala com sua mãe e sua ama sobre a possibilidade de se casar com Páris, embora ainda não tenha considerado o casamento com ele. A festa tem início; um Romeu melancólico segue Benvólio e seu espirituoso amigo Mercúrio para a casa de Capuleto. Uma vez dentro, Romeu Julieta de longe e imediatamente se apaixona por ela, esquecendo-se de Rosalina imediata e completamente. Enquanto vê Julieta, hipnotizado e em transe, um jovem Capuleto, chamado Teobaldo, reconhece Romeu, e fica enfurecido. Logo Romeu fala para Julieta e os dois experimentam uma profunda atração; eles se beijam sem saber os nomes um do outro. Quando Romeu descobre da ama de Julieta que esta é filha de Capuleto, o maior dos inimigos de sua família, ele fica perturbado. Igualmente chateada fica Julieta ao descobrir que acabara de beijar o filho de Montecchio. Enquanto Mercúrio e Benvólio deixam a propriedade de Capuleto, Romeu pula o muro do pomar para o jardim, incapaz de deixar Julieta para trás. De seu esconderijo, ele vê Julieta em uma janela acima do pomar e a ouve falar o nome dele. Ele chama por ela e eles trocam votos de amor.
  
Romeu e Julieta (1884), de Frank Dicksee

   Romeu se apressa para ver seu amigo e confessor, o Frei Lourenço, que, embora chocado com a súbita mudança no coração do jovem, aceita casar os amantes em segredo, vendo neste amor a possibilidade de acabar com a briga antiga entre Capuletos e Montecchios. No dia seguinte, Romeu e Julieta se encontram no cômodo do Frei e são casados por este. A ama, a par do segredo, adquire uma escada, que Romeu irá usar para subir na janela de Julieta para a sua noite de núpcias. No dia seguinte, Benvólio e Mercúrio encontram Teobaldo, primo de Julieta, que, ainda enfurecido com Romeu, desafia este para um duelo. Romeu aparece, e, por agora ser parente de Teobaldo, já que se casara com Julieta, implora ao Capuleto para adiar o duelo até que este entenda por que Romeu não quer lutar. Irritado com esta apelo à paz, Mercúrio diz que irá lutar com Teobaldo ele mesmo. Os dois começam o duelo; Romeu tenta impedi-los, saltando entre eles. Teobaldo esfaqueia Mercúrio por baixo do braço de Romeu, e Mercúrio morre. Em um acesso de raiva, Romeu mata Teobaldo e foge de cena. Logo depois, o príncipe o declara para sempre banido de Verona por seu crime. O Frei Lourenço arranja para que Romeu possa passar sua noite de núpcias com Julieta antes de ter que sair para a Mântua na manhã seguinte. Em seu quarto, Julieta aguarda a chegada de seu novo marido; a ama entra e, depois de alguma confusão, diz a Julieta que Romeu matou Teobaldo. Atormentada, Julieta de repente se vê casada com um homem que matara seu parente. Mas ela se recompõe e percebe que seu dever é estar com o seu amor: Romeu. Romeu entra no quarto de Julieta e finalmente consuma seu casamento naquela noite. A manhã chega e os amantes dizem adeus, sem saber quando se verão novamente.


L'ultimo bacio dato a Giulietta da Romeo (1823), de Francesco Hayez
   Julieta descobre que seu pai, afetado pelos acontecimentos recentes, pretende agora que ela se case com Páris em apenas três dias. Sem saber como proceder, incapaz de revelar a seus pais que ela é casada com Romeu, Julieta pede conselho à sua ama. Esta aconselha a considerar Romeu morto e se casar com Páris, que é a melhor saída de qualquer maneira. Desgostosa com a deslealdade da ama, Julieta ignora o conselho daquela e se apressa para encontrar o Frei Lourenço. Ele inventa um plano para reunir Julieta e Romeu em Mântua; na noite anterior ao dia do seu casamento com Páris, ela deve beber uma poção que a fará parecer estar morta. Depois que ela for enterrada na cripta da família, o Frei e Romeu secretamente a recuperarão, e ela estará livre para viver com seu amado, longe das brigas dos seus pais. Julieta volta para casa para descobrir que o casamento foi antecipado em um dia, e ela irá se casar já no dia seguinte. Naquela noite, portanto, Julieta bebe a poção e a ama a descobre aparentemente morta na manhã seguinte. Os Capuleto lamentam, e Julieta é sepultada conforme o plano, mas uma mensagem do Frei Lourenço endereçada a Romeu e explicando sobre o plano jamais chega às mãos deste em Mântua. O Frei João, responsável por entregar a carta, acaba ficando confinado em quarentena em uma casa, e Romeu ouve apenas que Julieta está morta. Com isto, decide se matar, em vez de viver sem ela. Ele compra um frasco de veneno de um boticário relutante em vendê-lo; então, acelera seu retorno a Verona para tirar a própria vida no túmulo de Julieta. Fora da cripta dos Capuleto, Romeu ataca Páris, que está espalhando flores sobre o túmulo de Julieta. Na luta, Romeu mata Páris. A seguir, entra no túmulo, vê o corpo inanimado de Julieta, bebe o veneno e morre ao lado dela. Só então, Frei Lourenço entra e percebe que Romeu matara Páris e a si próprio. Ao mesmo tempo, Julieta acorda. O Frei ouve a vinda de pessoas em sua direção; quando Julieta se recusa a sair com ele, o Frei foge sozinho. Julieta vê seu amado Romeu e percebe que ele se matou com veneno. Ela beija seus lábios envenenados, e, quando isto não a mata, enterra um punhal no peito, caindo morta sobre o corpo dele. Chegam o vigilante, o príncipe, os Capuleto e os Montecchio. Vendo os corpos de seus filhos, as duas famílias concordam em acabar com a rivalidade de longa data e levantar estátuas em ouro de seus filhos lado a lado em uma nova Verona, agora pacífica.


The Reconciliation of the Montagues and Capulets over the Dead Bodies of Romeo and Juliet (1855), 
de Frederic Lord Leighton

   É válido que analisemos quatro personagens mais importantes na peça. O primeiro deles, Romeu, tem um nome que, na cultura popular, tornou-se quase sinônimo de 'amante'. Na peça, ele de fato experimenta um amor de tal pureza e paixão que se mata quando acredita que o objeto de seu amor, Julieta, morreu. O poder do amor de Romeu, entretanto, muitas vezes esconde uma visão clara do personagem em si, que é muito mais complexo. Mesmo a relação de Romeu com o amor não é tão simples; no início da peça, ele tem grande pretensão por Rosalina, a proclamando como o modelo de mulher e desesperado pela indiferença dela em relação a ele. De certa forma, o histrionismo induzido em Romeu por Rosalina parece bastante juvenil; ele é um grande leitor de poesia de amor, e a representação de seu amor por Rosalina sugere que ele está tentando recriar os sentimentos que ele tem lido. Após o primeiro beijo de Julieta, ela diz a ele que 'ele beija como no livro', ou seja, que ele beija de acordo com as regras, o que implica que, enquanto proficiente, seu beijo carece de originalidade. Em  relação a Rosalina, ao que parece, Romeu ama 'pelo livro'. Ao ver pela primeira vez Julieta, Rosalina some imediatamente da cabeça de Romeu; mas Julieta não é mera substituição, e o amor que ela divide com Romeu é muito mais profundo, mais autêntico e original do que o amor clichê que ele sentia por Rosalina. Deve-se atribuir o desenvolvimento de Romeu, pelo menos em parte, a Julieta; as observações desta, como aquela sobre o beijo de Romeu, parecem essencialmente o importante para tirar este de sua ideia superficial do amor e para inspirá-lo a começar a falar um pouco da poesia de amor mais bela e intensa já escrita. No entanto, a profunda capacidade de Romeu para o amor é apenas uma parte de sua maior capacidade para intensos sentimentos de todos os tipos. Dito em outras palavras, é possível descrever Romeu como alguém a quem falta a capacidade de moderação - o amor o impulsiona a esgueirar-se pelo jardim da filha do inimigo, arriscando-se a morrer simplesmente para ter um vislumbre dela; a raiva o obriga a matar o primo de sua esposa em um duelo imprudente para vingar a morte de seu amigo; o desespero o obriga ao suicídio ao saber da morte de Julieta. Tal comportamento extremo domina o personagem de Romeu durante toda a peça, contribuindo para a tragédia final que recai sobre os amantes. Se Romeu tivesse se contido antes de matar Teobaldo, ou esperado mais um dia antes de se matar depois de ouvir a notícia da morte de sua amada, o final poderia ter sido feliz. É óbvio, entretanto, que se Romeu não tivesse tal profundidade de sentimentos, o amor que ele dividia com Julieta nunca teria existido em primeiro lugar. Entre seus amigos, especialmente ao gracejar com Mercúrio, mostra vislumbres de sua personalidade social; é inteligente, perspicaz, amante de duelos verbais (especialmente sobre sexo), leal e não teme o perigo.
 
Leonard Whiting (Romeu), no filme Romeu & Julieta de 1968, dirigido por Franco Zeffirelli
    Já analisando Julieta percebe-se que, não tendo alcançado seu décimo quarto aniversário direito, ela está justamente na fronteira entre a imaturidade e a maturidade. No início da peça, ela lembra apenas uma criança obediente, abrigada e ingênua. Muitas meninas com a mesma idade que a sua, incluindo sua mãe, já pensam no casamento ou mesmo se casaram; Julieta não deu ao assunto qualquer importância. Quando a senhora Capuleto menciona o interesse de Páris em se casar com Julieta, esta apenas obedientemente responde que irá tentar amá-lo, uma resposta um tanto infantil na sua obediência e na sua concepção de amor, que se percebe imaturo. Outra coisa interessante é que Julieta parece não ter amigos de sua idade e não fica confortável quando se fala de sexo (percebe-se isto quando a ama brinca com Julieta, como descrito na Cena III do Ato I). Há um vislumbre da determinação, força e sobriedade de Julieta nas primeiras cenas, e isto oferece uma pré-visualização da mulher que ela irá, ao longo dos quatro dias da peça, se tornar; a senhora Capuleto, por exemplo, mostra-se incapaz de acalmar a ama, enquanto Julieta o consegue fazer com apenas uma palavra. Além disto, mesmo em obediente aquiescência, Julieta tenta amar Páris, mas há algumas sementes de determinação firme nesta resiliência; Julieta promete considerar Páris como um possível marido na medida exata dos desejos de sua mãe, mas não mais do que isto. Julieta cederá aos desejos da mãe mas sem deixar de atender aos próprios desejos para se apaixonar por Páris. O primeiro encontro de Julieta com Romeu é a mágica que impulsiona fortemente sua concepção de vida para a fase adulta desta. Embora logo profundamente apaixonada por ele, Julieta é capaz de perceber e criticar as decisões precipitadas de Romeu e a tendência dele em romantizar sempre as situações. Depois que Romeu mata Teobaldo e é banido de Verona, Julieta não o segue de forma cega; ela desenvolve uma decisão lógica e sincera assumindo sua lealdade e amor por Romeu como prioridades em sua vida. Essencialmente, Julieta se liberta de suas correntes sociais - sua ama, seus pais e sua posição social em Verona - para tentar se reunir com Romeu. No fim da peça, quando ela acorda no túmulo e encontra Romeu morto, ela não se mata por fraqueza feminina, mas com uma intensidade de amor tal qual o fez Romeu. O suicídio de Julieta, na verdade, exige mais força e controle do que o de Romeu: enquanto ele engole veneno, ela apunhala a si mesma, através do coração, com um punhal. Um dos triunfos do início da carreira de Shakespeare em termos de caracterização é justamente o desenvolvimento da personagem Julieta de uma menina inocente e de ´olhos arregalados´ em uma mulher auto-confiante, leal e totalmente capaz. É uma das principais marcas do poeta em termos de personagem feminina confiante e completa.


Olivia Hussey (Julieta), no filme Romeu & Julieta de 1968, dirigido por Franco Zeffirelli

     Quando se volta os olhos para o Frei Lourenço percebe-se que este ocupa uma estranha posição na peça. Ele é um clérigo bondoso que ajuda Romeu e Julieta ao longo de toda a estória; ele realiza o casamento de ambos e dá importantes conselhos, especialmente no que diz respeito à necessidade de moderação e equilíbrio. Na peça, ele é a única figura religiosa atuante, mas é também o mais intrigante e político dos personagens em Romeu e Julieta: ele casa ambos como parte de um plano para acabar com a guerra civil em Verona, ele inspira Romeu a entrar no quarto de Julieta e, consequentemente, a ter que deixar Verona, ele elabora o plano para reunir ambos através do artifício enganoso de uma poção para dormir que parece surgir de um conhecimento um tanto místico. A propósito, esta espécie de conhecimento místico parece meio fora de propósito para um frei católico; por que ele tem tal conhecimento, e o que tal conhecimento pode significar? As respostas não parecem claras. Além de tudo isto, embora os planos do Frei sejam todos bem concebidos e de boa índole, eles acabam servindo como o mecanismo principal através do qual o destino trágico da peça ocorre; os leitores devem reconhecer que o Frei não é apenas sujeito ao destino que domina a peça - de várias maneiras, ele traz este destino.

Milo O´Shea (Frei Lourenço), no filme Romeu & Julieta de 1968, dirigido por Franco Zeffirelli
     Enfim, é válido que se discuta um pouco Mercúrio. Com um humor rápido e uma mente inteligente, ele é um daqueles ladrões de cena e um dos mais memoráveis personagens em todos os trabalhos de Shakespeare. Embora ele esteja constantemente a despejar trocadilhos, piadas e brincadeiras, às vezes de forma humorística, às vezes com certa amargura, Mercúrio não é um mero bufão ou brincalhão. Com suas palavras ferozes, ele perfura os sentimentos românticos e o amor-próprio cego que existe na peça; ele zomba da auto-indulgência de Romeu e ridiculariza a altivez e adesão de Teobaldo à moda. Alguns críticos consideram Mercúrio como uma força dentro da peça que funciona para esvaziar a possibilidade do amor romântico e do poder do destino trágico. Ao contrário dos outros personagens que culpa o destino por suas mortes, Mercúrio morre amaldiçoando todos os Montecchio e os Capuleto; ele acredita que pessoas, e não forças impessoais externas, são responsáveis por sua morte.


John McEnery (Mercúrio), no filme Romeu & Julieta de 1968, dirigido por Franco Zeffirelli

   Falemos um pouco sobre os temas, motivos e símbolos existentes na peça. O primeiro grande tema é o da contundência do amor. Romeu e Julieta é a estória de amor mais famosa na tradição literária inglesa, e mesmo em toda a cultura ocidental; sem a menor dúvida, e naturalmente, o amor é o tema dominante em toda a peça. Esta está centralizada no amor romântico, essencialmente emanado pela intensa paixão que brota à primeira vista entre os dois amantes. Na peça, o amor é uma força violenta, de irresistível êxtase, que supera todos os outros valores, lealdades e emoções; ao longo da estória, os jovens amantes são levados a desafiar todo o mundo social em que estão inseridos: as famílias, os amigos e os regentes. O amor é, sim, o tema principal na peça, mas deve-se lembrar que Shakespeare, aqui, não está interessado em retratar um amor enfeitado, uma versão graciosa da emoção, do tipo que os maus poetas que Romeu lê no início da peça, quando apaixonado por Rosalina, escrevem; em Romeu e Julieta, o amor é uma emoção brutal e poderosa que captura os indivíduos e os catapulta contra os seus mundos, e, às vezes, contra si mesmos. A natureza poderosa do amor pode ser vista na maneira como é descrito, ou, mais precisamente, na forma como as descrições falham em captar a sua totalidade; algumas vezes, o amor é descrito em termos religiosos (como na primeira vez em que os amantes se encontram), outras vezes, de forma um tanto mágica. Julieta, talvez, mais perfeitamente o represente quando se recusa a descrever o amor que sente por Romeu. O amor, em outras palavras, resiste a qualquer única metáfora, porque é poderoso demais para ser tão facilmente contido ou compreendido. Romeu e Julieta não faz uma alusão moral específica sobre as relações entre o amor e a sociedade, religião e família; outrossim, retrata o caos e a paixão de estar apaixonado, combinando imagens de amor, violência, morte religião e família em uma corrida impressionística que leva à conclusão trágica da peça. Antes de comentar o próximo tema e pela beleza das palavras, deixo abaixo o amor com conotação religiosa quando do primeiro encontro e troca de palavras entre os amantes.

   Romeu (a Julieta): Se minha mão profana o relicário 
     em remissão aceito a penitência;
     meu lábio, peregrino solitário,
     demonstrará, com sobra, reverência.
   Julieta: Ofendeis vossa mão, bom peregrino,
     que se mostrou devota e reverente.
     Nas mãos dos santos, pega o paladino.
     Esse é o beijo mais santo e conveniente.
   Romeu: Os santos e os devotos não têm boca?
   Julieta: Sim, peregrino, só para orações.
   Romeu: Deixai, então, ó santa! que esta boca
      mostre o caminho certo aos corações.
   Julieta: Sem se mexer, o santo exalça o voto.
   Romeu: Então ficai quietinha: eis o devoto.
     Em tua boca me limpo dos pecados.
                                           (Beija-a.)


   Outro tema importante na peça é o do amor como causa de violência. Os temas de morte e violência permeiam Romeu e Julieta, e estão sempre conectados à paixão, quer esta paixão seja amor ou ódio. A conexão entre o ódio, a violência e a morte parece óbvia, mas a ligação entre o amor e a violência requer um pouco mais de investigação. Na peça, o amor é uma grande paixão, e, como tal, chega a cegar, podendo sobrecarregar uma pessoa tão forte e completamente como pode o ódio. Desde o início do romance, o amor apaixonado entre Romeu e Julieta está ligado à morte: Teobaldo percebe a presença de Romeu na festa e determina-se a matá-lo no mesmo instante em que Romeu avista Julieta e imediatamente se apaixona por ela. A partir deste momento, o amor parece empurrar os amantes mais para perto da ligação amor x violência do que para longe. Os amantes são atormentados com pensamentos de suicídio e uma vontade de experimentá-lo - Romeu brande uma faca na presença do Frei Lourenço e ameaça se matar depois de ter sido banido de Verona e do seu amor; Julieta também o faz três cenas mais tarde. Por fim, cada um imagina que o outro parece morto na manhã após a sua primeira e única experiência sexual. Este tema continua até a sua conclusão inevitável: duplo suicídio. E esta escolha trágica é a mais suprema expressão do amor que ambos podem fazer; é somente através da morte que eles podem preservar seu amor, e este amor é tão profundo que eles estão dispostos a acabar com suas vidas em sua defesa. Na peça, enfim, o amor surge como algo amoral, levando tanto à destruição como à felicidade; mas, na sua extrema paixão, o amor que Romeu e Julieta experimentam também parece tão primorosamente bonito que poucos iriam querer, ou ser capaz, de resistir a seu poder.

Uma das cenas finais do filme Romeu & Julieta (1968), dirigido por Franco Zeffirelli
       Outro grande tema na peça é o conflito entre o indivíduo e a sociedade. Uma boa parte da peça envolve lutas dos amantes contra as instituições públicas e sociais que, explícita ou implicitamente, se opõem à existência do amor dos amantes. Estas estruturas vão do concreto ao abstrato: as famílias e o poder familiar centralizado na figura do pai; a lei e o desejo de ordem pública; a religião; a importância social depositada na honra masculina. Estas instituições frequentemente entram em conflito umas com as outras: a importância da honra, por exemplo, algumas vezes resulta em brigas que perturbam a paz pública. Embora nem sempre ajam em conjunto, cada uma destas instituições de alguma forma acabam se tornando obstáculos para Romeu e Julieta. A inimizade entre ambas as famílias, associada à ênfase colocada na lealdade e honra dos parentes, combinam para criar um profundo conflito para os amantes, que devem se rebelar contra seus patrimônios. Ainda, a estrutura patriarcal nas família renascentistas, em que o pai define toda a estrutura e desfechos sociais para os membros da sua família, particularmente para as mulheres, coloca Julieta numa posição extremamente vulnerável; o seu coração, na visão da família, não é seu para dar a quem desejar. A lei e a ênfase na civilidade social demandam termos de conduta com os quais a paixão cega do amor não pode concordar. A religião, da mesma forma, demanda prioridades que os amantes não podem cumprir por causa da intensidade do amor deles; embora na maioria das situações os amantes defendam as tradições do cristianismo (como esperar se casar e, somente depois, consumar o amor), o seu amor é tão poderoso que eles começam a pensar um no outro em termos de blasfêmia. Em uma das falas de Julieta, ela chama Romeu de ´deus da minha idolatria´, elevando o amante ao nível de Deus. Ainda, o ato final de suicídio do casal é também um ato de blasfêmia, não-cristão; a manutenção da honra masculina força Romeu a cometer ações que ele preferiria evitar, mas a ênfase social delegada à honra masculina é tão profunda que ele não pode simplesmente ignorá-la. É possível, assim, ver Romeu e Julieta como uma batalha entre as responsabilidades sociais e as ações exigidas por instituições sociais e as exigidas pelos desejos particulares do indivíduo... Ora, e não é assim a vida de todos nós? A apreciação da noite pelos amantes, com sua escuridão e privacidade, e a renúncia deles aos seus nomes, com sua consequente perda de obrigações, faz sentido no contexto dos indivíduos que querem escapar do mundo público, do mundo social. Entretanto, os amantes não podem impedir que a noite vire dia, e Romeu, por exemplo, não pode deixar de ser um Montecchio somente porque ele assim o quer; o resto do mundo não o permitirá. O suicídio final dos amantes pode ser compreendido, assim, como a noite definitiva, a privacidade definitiva.
   Um último grande tema tem alguma relação com o que escrevi nos primeiros parágrafos desta postagem: a inevitabilidade do destino. É como se não houvesse outra saída para o final da peça, e que o sentido somente se completa com o fim trágico. Já no prólogo da peça, na sexta linha do original em inglês, o coro anucia ´a pair of star-cross´d lovers take their life´, ou seja, o destino controla suas vidas. Não somente para o público, este senso de destino permeia toda a peça; os personagens são bastante conscientes disto: os amantes estão constatemente diante de presságios. Por exemplo, quando Romeu acredita que Julieta está morta, ele grita ´Então, eu te desafio, estrelas´, complementando a ideia de que o amor entre ambos está em oposição aos decretos do destino. Obviamente, o desafio de Romeu o leva a se jogar nas mãos do destino, e a sua determinação em passar a eternidade com Julieta resulta em suas mortes. O interessante mecanismo do destino envolve todos os eventos que cercam os amantes: a rivalidade entre suas famílias (é válido notar que o ódio entre as famílias nunca é explicado na peça, devendo o leitor apenas aceitá-lo como um aspecto inegável do mundo na peça), a série de acidentes horríveis que arruínam os aparentemente bem-intencionados planos do Frei Lourenço no final da peça, e, por fim, o trágico jogo do tempo no exato momento do suicídio de Romeu, imediatamente seguido do despertar de Julieta. Estes eventos não são mera coincidência, mas sim manifestações do destino que ajudam a trazer o resultado inevitável da morte dos jovens amantes.
   Quanto aos motivos da peça, um dos mais importantes é o contraste de imagens em claro e escuro. Nem sempre, contudo, há um significado metafórico especial no contraste: por exemplo, luz nem sempre é bom e o escuro nem sempre é mau; pelo contrário, a luz e a escuridão são geralmente utilizadas para proporcionar um contraste sensorial e sugerir alternativas opostas. Um dos exemplos mais importantes deste motivo é a longa meditação de Romeu sobre o sol e a lua durante a cena da sacada, em que Julieta, metaforicamente descrita como o sol, é vista como a banir a ´lua invejosa´ e a transformar a noite em dia. Outro momento em que se percebe o motivo é nas primeiras horas da manhã logo após a única noite em que os amantes ficam juntos; Romeu, forçado a fugir para o exílio no período da manhã, e Julieta, não querendo que ele saia do seu quarto, tentam fingir que ainda é noite, e que a luz é realmente escuridão (´A luz aumenta a cada instante / a luz? a escuridão apavorante´). Deixo parte da cena em que Romeu associa Julieta metaforicamente ao sol...

   Romeu: Só ri das cicatrizes quem ferida
     nunca sofreu no corpo.
                                (Julieta aparece na janela.)
     Que luz escoa agora da janela?
     Será Julieta o sol daquele oriente?
     Surge, formoso sol, e mata a lua
     cheia de inveja, que se mostra pálida
     e doente de tristeza, por ter visto
     que, como serva, és mais formosa que ela.
     Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa.
     Somente os tolos usam sua túnica
     de vestal, verde e doente; joga-a fora.
     Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor.
     Se ela soubesse disso!
     Ela fala; contudo, não diz nada.
     Que importa? Com o olhar está falando. 
     Vou responder-lhe. Não; sou muito ousado;
     não se dirige a mim: duas estrelas
     do céu, as mais formosas, tento tido
     qualquer ocupação, aos olhos dela
     pediram que brilhassem nas esferas,
     até que elas voltassem. Que se dera
     se ficassem lá no alto os olhos dela,
     e na sua cabeça os dois luzeiros?
     Suas faces nitentes deixariam
     corridas as estrelas, como o dia
     faz com a luz das candeias, e seus olhos
     tamanha luz no céu espalhariam,
     que os pássaros, despertos, cantariam.
     Vede como ela apóia o rosto à mão.
     Ah! se eu fosse uma luva dessa mão,
     para poder tocar naquela face!

    Outro motivo interessante são os pontos de vista opostos; neste sentido, Mercúrio desempenha um papel cabal. Na peça, Shakespeare inclui numerosas falas e cenas em que se apresentam dicas quanto às várias formas de se avaliar o que está acontecendo. Mercúrio constantemente espeta os pontos de vista dos outros personagens na peça; por exemplo, ele vê a devoção de Romeu ao amor como um tipo de cegueira que o rouba de si mesmo. Da mesma forma, ele enxerga a devoção de Teobaldo à honra como cega e estúpida. Os seus trocadilhos e o discurso sobre a Rainha Mab podem ser interpretados como uma subcotação de virtualmente todas as paixões evidentes na peça; assim, Mercúrio funciona como um crítico das ilusões de justiça e de grandeza dos personagens que o cercam. Os pontos de vista opostos também podem ser percebidos nas cenas com os servos. O mundo dos nobres é cheio de grandes tragédias; o dos servos, em contraste, é caracterizado por necessidades simples, e mortes prematuras ocorrem geralmente por doenças e pobreza, e não por duelos e grandes paixões. Enquanto a nobreza quase parece se deleitar com a sua capacidade para o drama, a vida dos servos é tal que eles não podem se permitir tragédias do tipo épico.
   Existem três interessantes símbolos na peça. O primeiro deles é o veneno; em sua primeira aparição, o Frei Lourenço observa que cada planta, erva e pedra tem suas próprias características especiais, e que não existe nada na natureza que não possa ser usado para fins bons e maus. Assim, o veneno não é intrinsecamente mau, mas é, em vez disto, uma substância natural que se torna letal através de mãos humanas. Ao longo da peça, estas palavras do Frei se provam verdadeiras. A poção de dormir que ele dá a Julieta surge para causar a impressão de morte dela, não a morte em si, mas por circunstâncias que fogem ao controle do Frei, a poção acaba levando a um resultado fatal: o suicídio de Romeu. Este exemplo mostra como os seres humanos tendem a causar a morte, mesmo sem querer. De forma semelhante, Romeu sugere que a sociedade é culpada pela venda criminosa de veneno pelo boticário, porque, enquanto há leis que proíbem a venda de veneno pelo boticário, não há leis que o ajudariam a ganhar dinheiro. Com tudo isto, o veneno simboliza a tendência da sociedade para arruinar as coisas boas e torná-las fatal, assim como a intriga sem sentido dos Capuleto e dos Montecchio transforma o amor de Romeu e Julieta em veneno. É interessante notar que, diferente de muitas de suas outras tragédias, esta peça não apresenta um vilão maldoso em si, mas sim pessoas com boas qualidades que acabam se tornando veneno pelo mundo em que vivem. 
   O segundo símbolo interessante na peça é o de morder o polegar. Este gesto é considerado desonroso na intriga entre as famílias e inicia disputas entre estas; ora, este gesto, essencialmente sem sentido, como causa de conflitos, representa a loucura da disputa entre os Capuleto e os Montecchio e toda a estupidez da violência em geral. 
   O último dos fortes símbolos na peça é a Rainha Mab. Há um discurso deslumbrante de Mercúrio sobre esta fada, que viaja durante a noite em sua pequena carruagem trazendo sonhos aos que dormem. Um dos mais interessantes aspectos da Rainha Mab, contudo, é que os sonhos que ela traz geralmente não contêm os melhores lados dos sonhadores, mas, em vez disto, serve para confirmar os vícios e desvirtudes que eles apresentam - por exemplo, a ganância, a violência, a luxúria. Outro importante aspecto da descrição da fada por Mercúrio é que ela é completamente sem sentido, embora vívida e muito colorida. Finalmente, é interessante notar que, na descrição da fada, ela percorre grandes distâncias para enfatizar o quão pequena e insubstancial ela e seus apretechos são. A Rainha Mab e sua carruagem não simplesmente simbolizam os sonhos dos que dormem, mas também o poder de expor fantasias, devaneios e desejos. Através do imaginário da fada, Mercúrio sugere que todos os desejos e fantasias são tão sem sentido e frágil quanto Mab, e que eles são basicamente corruptores. Este ponto de vista contrasta fortemente com o de Romeu e Julieta, que vêem seu amor tão real quanto nobre.

Rainha Mab
   Enfim, a primeira tragédia do ´bardo inglês´ se reveste de um brilho como nunca se tinha visto antes dele em estórias de amor. E o poder das suas palavras é tão grande que não existe qualquer referência àquele sentimento que não traga à memória imediatamente esta tragédia. Quantos filmes, quantas músicas, quantas peças, quantos quadros foram inspirados nesta peça! O que mais me chama a atenção em Romeu e Julieta é a idade dos amantes; no início da adolescência eles foram capazes de conhecer e viver o maior amor de suas vidas, e parece que o trágico fim se reveste de uma felicidade para o eterno, para o firmamento. Não poderia haver outro final! Neste fim transcendental, a primavera e o inverno se encontram - o inverno assume o papel da primavera, e esta a tristeza daquele. O maior sentido de todos? Parece que, não importa o que os personagens façam para tentar recriar o destino a eles imposto, este prepondera e se completa. Mas o destino parece que age como a dizer que, se não fosse ele, as coisas não se cercariam do sentido perfeito que lhes cabe; não parece ser uma questão de ´bom´ ou ´mau´. E, é válido analisar o final feliz de várias estórias infantis: ´e viveram felizes para sempre...´. Não, não pode haver tal final; não neste mundo! A vida exige o equilíbrio entre as coisas boas e ruins, inclusive elas coexistem dentro de cada um de nós. Agora, no caso da peça de Shakespeare, o final se deu para além deste mundo, e eles viveram exatamente o inverso do que ocorre nestas estórias infantis: eles tiveram um momento de felicidade suprema ao consumarem o seu amor uma única vez e o sofrimento supremo no duplo suicídio do final; mas o fim trágico é deste mundo, e a felicidade suprema está para além dele, por isto se completa e faz sentido, e o destino se exime de qualquer culpa. A truly masterpiece! Felicidade é ler Shakespeare! :) Uma boa semana a todos! Deixo a música homônima de Dire Straits, que muito tocou o coração dos jovens amantes, inclusive o meu!