domingo, 29 de junho de 2014

Os Invencidos

   Seguindo na análise das obras do grande Faulkner, esta semana teceremos alguns comentários sobre outro romance seu: Os Invencidos (The Unvanquished). Já tendo tecido comentários de sua vida, sabemos que no início da década de 1930 foram publicados seus maiores trabalhos: O Som e a Fúria (na verdade, em 1929) e, a seguir, Enquanto Agonizo, Luz em Agosto e Absalão, Absalão! Os Invencidos, em contraste, não está entre seus melhores trabalhos. Publicado em 1938, o romance exibe pouco da sofisticação, complexidade e inovação técnica na prosa em que se baseia a reputação do autor. Os personagens são menos sutis e bem delimitados - o bravo Coronel Sartoris, a feroz Drusilla e o nobre Bayard não são tão atormentados ou complicados como seus personagens mais famosos. Além disto, os episódios no livro frequentemente não são equilibrados, sem dúvida devido ao fato de terem sido compostos em momentos diferentes. Os episódios menos complexos (Emboscada, Retirada, Incursão e Escaramuça em Sartoris) foram escritos como pequenas estórias em 1934 e 1935 para o jornal The Saturday Evening Post e outras revistas de classe média. Em contraste, Um Cheiro de Verbena não foi escrito até 1937, tendo sido criado para ser o episódio final em um romance proposto. Seu drama intenso e simbolismo formal parece em desacordo com a comédia das aventuras de patifaria de Bayard mais no início do romance. Mas, embora Os Invencidos não seja a melhor ficção de Faulkner, é maravilhosamente divertido e muito bem escrito, e os vôos de fantasia cômica desmentem a seriedade de suas mensagens mais profundas.

William Faulkner (1897-1962)
   Um outra questão abordada no romance é uma memória crítica à Guerra Civil americana. Os Invencidos é único dentre seus trabalhos que se passa durante a guerra, enquanto a maioria dos outros romances seus tratam de temas mais relacionados à identidade do Sul dos EUA, mas geralmente ambientados já no século XX. Em Os Invencidos, vemos Confederados e Yankees, incursões e escaramuças, além de exércitos e batalhas. Faulkner inequivocamente celebra a bravura e o heroísmo dos Sartoris, e os leitores também se identificam com eles. Mas o racismo maléfico subjacente à causa dos Confederados é apenas representado de soslaio; na verdade, parece que a maioria dos escravos no romance não 'querem' ser livres, e aqueles que o querem, como o escravo Loosh dos Sartoris, são apresentados em tons decididamente negativos. Até mesmo quando o Coronel Sartoris assassina dois dos abolicionistas entre os nortistas é algo representado supostamente de forma louvável. Mas a pintura final não é tão unilateral: personagens como Ringo são genuinamente positivos, heroicos e multi-facetados.
   Em Os Invencidos há sete episódios; algumas vezes, uns seguem temporalmente imediatamente ao outros e outras vezes os episódios apresentam eventos separados por meses ou anos - no geral, envolvem o intervalo de tempo de 1862 a 1873. O livro se inicia com a descrição de Bayard Sartoris e seu escravo e amigo Ringo, ambos brincando na plantação dos Sartoris. Um escravo chamado de Loosh presunçosamente interrompe a brincadeira, informando que os exércitos da União entraram pelo nordeste do Mississippi, próximo à cidade deles, Jefferson. Os garotos não entendem completamente, mas o pai de Bayard, o coronel John Sartoris, retorna para casa do front naquele dia informando à avó Millard que Vicksburg foi tomada. Loosh obviamente sabe da derrota, e Bayard decide, junto a Ringo, ficar de olho em Loosh. Após vários dias de vigília, os garotos seguem um soldado Yankee montado a cavalo pela estrada. Os garotos atiram no soldado e depois correm para casa, quando pancadas se ouvem na porta da frente. A avó os esconde sob a sua saia e insiste ao raivoso sargento da União que não há crianças por ali. O Coronel Dick, um oficial Yankee, desiste de buscar pela casa por pena, não por acreditar na avó. Felizmente, os garotos descobrem que eles mataram apenas o cavalo.


   No ano seguinte, seguindo instruções do Coronel Sartoris, a avó decide carregar um baú pesado de prata até Memphis para mantê-lo em segurança. Após escavar o chão onde ele estava enterrado, ela obsessivamente insiste que os escravos o levem para o seu quarto no andar superior, pois assim ela o poderá vigiar durante a noite. A jornada até Memphis os leva através de áreas ocupadas pela União. Uma tarde, homens armados cercam os viajantes e roubam as mulas, apesar das tentativas da avó em expulsá-los. Bayard e Ringo pegam um cavalo de um celeiro próximo e tenta perseguir os atacantes, deixando a avó cuidando de si mesma. Eles são encontrados adormecidos no dia seguinte pelas tropas do Coronel Sartoris. Furioso e preocupado com a avó, o coronel os leva de volta a Jefferson pessoalmente; no caminho, eles acidentalmente encontram os ladrões, um grupo de soldados do norte, capturando os suprimentos deles, embora o coronel tenha permitido que os homens fugissem. Felizmente, a avó chegou a casa em segurança, mas no dia seguinte uma brigada da União cavalga até a casa buscando o Coronel Sartoris. Ele escapa, mas os Yankees queimam a casa e levam o baú de prata.


   A avó decide pessoalmente pedir aos Yankees que devolvam o baú, os escravos e as mulas. Com Bayard e Ringo, ela parte para o Alabama em busca do exército da União. Eles passam por um exército de escravos libertos que também está procurando os Yankees. No caminho, eles param em Hawkhurst, onde a tia Louisa, de Bayard, vive; Ringo se anima em ver a estrada de ferro que passa por perto. Mas esta foi destruída e a casa queimada. Em Hawkhurst, a prima de Bayard, Drusilla, suplica para que este peça ao pai dela para deixar que ela se una ao regimento de soldados. Ela os acompanha até a ponte sobre o rio, onde os Yankees estão acampados, e eles são envolvidos por um mar de escravos inquietos. As tropas do norte dinamitam a ponte e, na confusão, a carroça cai na água. Os Yankees os recupera, entretanto, e ficam tão sobrecarregados com escravos em excesso que o Coronel Dick emite uma ordem para dar mais do que cem escravos e mulas para a avó, bem como vários baús de prata. A avó dispensa a maioria dos escravos, mas ela e Ringo usam a ordem para adquirir doze cavalos extras de uma acampamento da União. O embuste é repetido constantemente, e após um ano, a avó e Ringo construiram um negócio próspero com mulas contrabandeadas com a ajuda de Ab Snopes, um branco pobre local. Então, Ab vende as mulas de volta aos desavisados Yankees. Eles discutem acerca de uma oportunidade particularmente arriscada e decidem continuar, embora a avó se sinta desconfortável. Sua hesitação é justificada: o exército da União emite um memorando que informa acerca de embustes e, pouco tempo após, após eles deixarem um acampamento, os soldados marcham até eles e os confrontam. Felizmente, a avó já havia deixado as mulas com Ab por segurança, e quando Ringo cria uma diversão na floresta, Bayard e a avó simplesmente desaparecem entre as árvores. Mais tarde naquela semana, torna-se claro que a avó não manteve os proventos para si, mas os distribuiu entre outros membros da comunidade.


   No Natal de 1864, Ab diz à avó sobre um grupo de bandidos liderados por um ex-confederado de nome Grumby, que vem aterrorizando o país. Ab convence a avó a tentar a farsa deles uma última vez em Grumby e seus homens. Embora Bayard tente desesperadamente dissuadi-la da ideia, ela insiste em fazê-lo, e acaba sendo morta a tiros por Grumby. Após o funeral, Bayard planeja buscar vingança acompanhado de Ringo e do tio Buck. Percebendo que Ab Snopes se uniu a Grumby e seu bando, eles os perseguem por dois meses pela área. Eles percebem que estão chegando perto de alcançá-los quando um estranho bem vestido acaba se revelando um dos homens de Grumby e atira neles, ferindo o tio Buck; no dia seguinte, eles encontram Ab Snopes preso pela estrada numa espécie de sacrifício. O covarde Ab suplica por piedade e eles decidem não matá-lo; em vez disto, o tio Buck o leva de volta para a cidade. Bayard e Ringo continuam a perseguição e logo os comparsas de Grumby decidem entregar este para os garotos na tentativa de acalmá-los. Grumby e Bayard brigam. Bayard é quase vencido, mas prevalece e acaba matando Grumby. Os garotos pregam o corpo na porta da compressa de algodão onde sua avó foi morta, a seguir cortando sua mão e levando para a lápide da avó.


   Naquela primavera, Drusilla retorna da guerra e está vivendo com os Sartoris em Jefferson. Tia Louisa está escandalizada que Drusilla tem vivido com o Coronel Sartoris e determina que eles devem se casar. Tia Louisa pede para várias mulheres de respeito da cidade convencerem Drusilla. Logo a tia Louisa chega e, ignorando os protestos da filha, faz planos para o casamento. Entretanto, ela planeja o casamento para o mesmo dia em que está havendo uma eleição fortemente contestada em Jefferson, em que o Coronel Sartoris está tentando impedir a vitória de um aventureiro na cidade. No dia do casamento, Drusilla vai para a cidade para se casar mas acaba ajudando o Coronel a enfrentar dois dos aventureiros, contra os quais ele atira e mata. Quando descobre o que aconteceu, tia Louisa fica furiosa com o fato de o casamento não ter acontecido. Drusilla, o Coronel e os cidadãos se dirigem para a plantação dos Sartoris para retomar a eleição; não surpreendentemente, o candidato republicano, um ex-escravo, perde. Oito anos depois, Bayard torna-se um estudante de Direito na Universidade do Mississippi; tendo beijado Drusilla uma vez nos anos anteriores, esta parece estar apaixonada por ele. Uma noite, Ringo vai à universidade para dizer que o Coronel Sartoris foi assassinado por um ex-sócio e rival, Ben Redmond. Espera-se que Bayard busque vingança e atire em Redmond. Ele volta imediatamente para Jefferson, onde Drusilla, com seu vestido amarelo com um raminho de verbena em seu cabelo, parece quase uma sacerdotisa da vingança. Ela lhe entrega um par de pistolas de duelo e então cai numa crise histérica de riso. Após Louvinia ter levado Drusilla para a cama, a tia de Bayard, Jenny, pede para que ele não gere violência. Na manhã seguinte, Bayard vai até a cidade com Ringo. Uma multidão se reúne enquanto ele se prepara para entrar no escritório de Redmond, mas Bayard se recusa a aceitar a assistência de Ringo e uma pistola oferecida por um amigo de seu pai, George Wyatt. Ele entra no escritório; Redmond dispara dois tiros contra Bayard e então pega seu chapéu, atravessa a praça e pega um trem para fora de Jefferson para sempre. Os cidadão pensam que Bayard está morto; de fato, ele decidiu confrontar Redmond desarmado, quebrando o ciclo de violência sem sacrificar sua honra. Quando ele retorna para sua casa naquela noite, Drusilla partiu para sempre. O único sinal dela é um raminho de verbena que ela deixou no travesseiro.


Verbena
   Analisando os principais personagens, inicialmente tecerei alguns comentários sobre o principal deles: Bayard. Os Invencidos é um romance de autodesenvolvimento; neste tipo de romance, o personagem principal é apresentado durante seu crescimento, indo da infância à fase adulta. A preocupação central neste tipo de livro é, geralmente, o que o personagem aprende e como ele muda ao longo do tempo. Isto é certamente verdadeiro neste romance de Faulkner, especialmente enquanto Bayard controla nossa percepção do mundo ao seu redor: nós não somos apresentados a nada que ele não veja ou conheça. Assim, seu desenvolvimento moral e pessoal é de profunda importância. No início da estória, Bayard goza de uma infância idílica a despeito da guerra, como retratado mais claramente em 'Emboscada' e 'Retirada'. Bayard parece feliz e relativamente despreocupado; a primeira cena no romance é a dele brincando bastante contente com seu amigo Ringo. Não há menção de sua mãe (uma omissão infrequente), mas Bayard, no entanto, goza de uma calorosa e protetora família, incluindo sua avó e Louvinia. Podemos perceber claramente os traços do seu caráter, especialmente sua coragem nas explorações iniciais, mas não as consequências prejudiciais de suas ações: seu tiro mata apenas o cavalo, e o Coronel Dick tem pena da avó; ele é resgatado de sua perseguição selvagem aos ladrões das mulas pelo Coronel Sartoris e a avó encontra seu caminho para casa ilesa.
   O evento crucial na vida de Bayard é, obviamente, a morte de sua avó e a perseguição e captura bem sucedida de Grumby. O assassinato dela não importa apenas por causa do papel central que ela representava em sua vida, mas por causa da plausibilidade que ele carrega em ter sido o responsável - em seu coração, ele sabia o que iria acontecer, e podia tê-la mantido em segurança se a tivesse impedido de ir ao local do crime. Nesta passagem, Bayard duas vezes menciona sua idade, como que para enfatizar o enorme abismo em sua vida antes e depois do assassinato. No capítulo seguinte, quando o tio Buck diz a Grumby que ele está lidando com 'crianças', a ironia é palpável, já que Bayard, obviamente, se torna um adulto. Já como um adulto no capítulo 'Um Cheiro de Verbena', Bayard representa a possibilidade de uma nova ordem moral para o Sul dos EUA. O Sul tradicional, como representado pela família Sartoris, está preso em um ciclo destrutivo de violência e retribuição, uma dos quais leva a vida da avó, e, num outro ciclo, a vida do Coronel Sartoris. Ao confrontar Redmond desarmado, Bayard retém a melhor parte daquela tradição: o conceito de honra, e dispensa a necessidade de derramar sangue. É um final de esperança e otimismo para Bayard e seus compatriotas.


   Outro personagem importante no livro é o Coronel Sartoris. Se Bayard representa a possibilidade de uma nova ordem no Sul, o Coronel Sartoris é o epítome do velho, do homem tradicional exagerado ao ponto de estereótipo. A lista de suas qualidades positivas é grande: inteligência, coragem, honra, integridade, devoção à família, orgulho masculino. Na verdade, ele seria muito forte para ser crível se seu caráter fosse testado mais profundamente. Entretanto, nós apenas o vemos através dos olhos de um filho adorador, que, compreensivelmente, enfatiza as qualidades heroicas do pai. O Coronel aparece em cena a intervalos relativamente infrequentes; usualmente está longe, em guerra, e faz uma breve aparição em alguns capítulos, não aparecendo em outros capítulos em nenhum momento. Somente em 'Retirada' e 'Escaramuça em Sartoris' nós o vemos de forma extensiva e mais importante. Como resultado, seu personagem é mais legitimamente envolto em uma aura de lenda. Finalmente, o romance é narrado por um Bayard adulto em um tempo muito depois da guerra, quando as realidades mundanas da memória de seu pai tinham sido suplantadas por uma mitologia que ele havia parcialmente inventado. Se o Coronel fosse o narrador ou o protagonista, suas qualidades muito virtuosas dominariam o livro e o tornariam caricatural; embora sob a óptica de um garoto e em pequenas doses, a presença do Coronel dá à guerra majestade e grandiosidade.
   De grande importância no romance é também a avó Millard. De sua própria maneira, a avó é tão heroica quando o Coronel, mas seu heroísmo parece mais íntimo e humano. A grandeza do Coronel está no sangue, na fumaça e nos sabres, enquanto a avó nunca é mais heroica do que quando Bayard a vê como uma silhueta contra a chuva, uma pequena e velha senhora. A avó é uma presença constante na primeira metade do livro, e seus triunfos são comuns e humanos. Além disto, seu heroísmo emerge gradualmente, de modo que seu caráter se desenvolve e desabrocha, enquanto o do Coronel é estático. No meio de uma guerra dominada por façanhas de homens, a avó representa um ideal imaginário para as mulheres, bravas e engenhosas, em vez de fracas e suaves. A morte da avó é um duro golpe para a ordem moral de sua comunidade, mesmo que Bayard tenha organizado as coisas por um tempo ao vingar a morte. Ela confidencialmente diz a Bayard que nenhum homem, especialmente um ex-soldado confederado como Grumby, poderia prejudicar uma mulher indefesa, mas mesmo este princípio central do código sulista desapareceu com a guerra. Mais indiretamente, ela é traída por Ab Snopes, um incompetente que se preocupa mais com os lucros do que com a honra e a moralidade no que faz. No universo do condado de Yoknapatawpha, os Snopes somente se tornarão mais poderosos e numerosos com o tempo, deixando o mundo menor e mais insignificante para trás.


   Um último personagem que merece destaque é Drusilla. O retrato desta é visivelmente cambaleante. Em 'Retirada' e 'Escaramuça em Sartoris' ela é uma guerreira descompromissada com cabelo curto, que detesta as constrições da feminilidade e não quer nada mais do que poder matar Yankees. Mas em 'Um Cheiro de Verbena' ela é descrita como apaixonada e mesmo lasciva, beijando Bayard no jardim e deixando o cheiro de verbena atrás dela. Suas calças foram trocadas por um vestido de baile amarelo e seu discurso sem adornos passa a ser uma prosa fantasiosa, permitindo a ela descrever um par de pistolas de duelo como 'finas, invencíveis e fatais, como a forma física do amor'. Diferente da avó, cuja transformação é lenta e crível, a quebra no caráter de Drusilla é brusca e difícil de se crer. Em ambas as encarnações, no entanto, Drusilla parece, à primeira vista, inquestionavelmente o personagem feminino mais forte no romance, até que sua força se abre para revelar uma vulnerabilidade infantil. Drusilla é capaz de defender a si mesma com uma pistola e de dormir desprotegida num acampamento confederado, mas se desfaz diante de sua mãe e de um baú cheio de vestidos. Sua volatilidade emocional crua está em desacordo com a feminilidade sulista tradicional e também não sabe como se proteger de sua invasão. Sua derrota em 'Escaramuça em Sartoris' é de forma mais honesta possível, e uma acusação eficaz ao vazio da velha ordem social (diferente da ordem moral).
   Com relação aos temas na obra, podemos destacar alguns deles. A moralidade e o desenvolvimento da moral são evidentes; da mesma forma que a estória do crescimento de Bayard, da infância até a maturidade, o livro é centrado no seu desenvolvimento moral. Enquanto criança, ele é inocente com relação aos conceitos de moralidade e honra; ele atira no soldado da União não sem princípio, mas por excitamento e por que testemunhou adultos fazendo coisas parecidas. O desenvolvimento da moral de Bayard é moldado mais profundamente pela sua avó paterna. Pela primeira vez, ele sente o peso da responsabilidade de um adulto, e ele o faz não apenas porque é o que se espera dele, mas por causa de um envolvimento pessoal e emocional para se obter justiça por sua avó. Sua decisão em não matar Redmond representa o mais alto estágio de moralidade: ele vai contra um forte instinto pessoal e contra os desejos de vários moradores e amigos em nome de uma virtude superior, uma injunção bíblica contra matar. O romance também descreve o código moral do velho Sul e como ele muda ou não muda ao longo da guerra. O aspecto positivo deste código é o cavalheirismo da avó e do Coronel Sartoris (a obrigação de ajudar os menos afortunados, de proteger as crianças e de por a família acima de si mesmo). Mas outros aspectos, igualmente tradicionais, são a ignorância da moralidade que alimenta o código, tendo como preocupação apenas suas qualidades formais vazias. A tia Louisa e os senhor Habersham respeitam apenas a forma, mas não o significado (as regras formais para conduzir um casamentos, mas não a necessidade de compaixão ou perdão). E sulistas como Ab Snopes e Grumby parecem não ter um código, mas somente o desejo de seguir adiante com benefício às custas da perda dos outros.


   Um outro tema que merece discussão é o da raça. As questões raciais que motivaram a Guerra Civil e muitos outros livros de Faulkner são, em sua maior parte, excluídas de Os Invencidos - não se busca analisar a escravidão ou a humanidade dos negros. Mas a raça é necessariamente uma questão central no romance, até mesmo para um leitor mais atual em relação ao leitor da época do autor. A insensibilidade racial que o livro algumas vezes revela (os escravos conformados e mesmo contentes com a escravidão, o retrato de Loosh, cujo desejo de liberdade é retratado como injustificado e ingrato) nos deixa desapontados e desconfortáveis. Mas outras partes do romance desafiam o preconceito racial prevalente à época. A migração dos escravos em busca do rio Jordão é uma imagem assombrosa de injustiça e de desejo frustrado. Em um aspecto bem diferente, o caráter de Ringo, que é inicialmente estereotipado, acaba ultrapassando um tipo racial padrão para se tornar um humano totalmente não questionador. O tratamento benevolente que Ringo recebe dos brancos pode não ser crível, mas sua inteligência, discernimento e amizade leal contribuem para que um personagem negro seja tão admirável quanto qualquer branco no romance. Faulkner foi considerado um liberal em questões acerca do racismo na era pré-direitos civis no Sul dos EUA, e enquanto Os Invencidos não é tão racialmente iluminado como seu melhor trabalho, o romance ocasionalmente lida com discriminação, usando o preconceito da era da Guerra Civil para realçar um problema sulista corrente.
   Quanto aos motivos, podemos também destacar dois. Um deles é a Guerra Civil; esta é mais do que um cenário para o romance. É uma presença ativa, influenciando os valores e as ações dos personagens, além de influenciar a trama. O campo de batalha nunca é representado diretamente, mas podemos perceber a influência das batalhas na diminuição das fortunas dos personagens, na devastação visitada nas fronteiras e na permanência duradoura dos civis. Mas, a despeito desta aparência de realismo, esta não é uma representação realista do que foi uma guerra inimaginavelmente horrível e violenta. Em vez disto, apresenta uma coleção de feitos heroicos do Coronel Sartoris e seus homens, que assediam os Yankees mas escapam sem punição. Ao mesmo tempo, a guerra põe em discussão o sistema de valores do Sul; já que os meios sociais tradicionais de imposição se foram, mesquinhos como Grumby e Ab Snopes podem florescer. Bayard e os outros personagens são responsáveis por garantir que o sistema sulista não desapareça como resultado do trauma em que está envolvida a sociedade. A guerra, assim, cria a crise que testa Bayard e permite que ele se desenvolva e amadureça como adulto.


   Outro motivo é o humor. As passagens cômicas no romance inicialmente contribuem para a atmosfera idílica da infância que Bayard aproveita nos primeiros capítulos. A guerra não é nada mais do que uma aventura divertida para ele, e o tom humorístico de seus arranhões é reconfortante, como que a prometer que nada ocorrerá de seriamente errado. Até mesmo as dificuldades aparentes, como o incêndio da casa, não interrompem seriamente este clima de segurança. Apenas o clímax do romance desaloja as proteções da infância e, com elas, o humor gentil dos primeiros capítulos. A vingança que Bayard executa com relação à sua avó e ao Coronel Sartoris é completamente sem senso de humor (até mesmo a farsa em 'Escaramuça em Sartoris' é apresentado com amargura, diferente da comédia explícita em 'Emboscada').
   Quanto aos símbolos contidos, alguns merecem destaque. Um deles é o baú de prata; toda a jornada que a avó enfrenta para proteger e estar perto dele representa mais do que o valor monetário em si - na verdade, ele simboliza a continuidade com o passado, uma forma física das tradições que ela teimosamente tenta manter. Quando a guerra acabar, o baú poderá ser desenterrado e a vida voltará a ser mais ou menos como antes, pelo menos dentro dos limites confinados da mesa de jantar. A prata, herdada dos ancestrais e transmitida como uma herança, é particularmente um bom emblema da respeitabilidade de uma família, além do orgulho e da linhagem ininterrupta. Quando Loosh o rouba, aos olhos da avó ele está assaltando diretamente a integridade da família Sartoris. A ideia de que um escravo pode possuir a prata da aristocracia resume as condições sociais às avessas criadas pela guerra.
   Outro símbolo é a verbena. Uma flor que tipicamente produz um forte aroma cítrico apenas aparece no último capítulo, mas a referência recorre constantemente. Drusilla a usa no cabelo; Bayard pendura uns raminhos no seu casaco quando vai confrontar Redmond e caminha pela praça da cidade envolvido numa nuvem do aroma; Drusilla coloca suas flores no travesseiro de Bayard como um gesto de adeus. Ela diz a Bayard que a usa porque é o único aroma forte o suficiente para sobrepujar aqueles odores pungentes de cavalos e campos de batalha - o odor da coragem, ela afirma. Mais literalmente, o aroma de verbena se torna um símbolo de Drusilla em si, de modo que quando Bayard o sente enquanto caminha em direção ao escritório de Redmond, tem-se uma continuação sensorial com os incitamentos dela para a violência no dia anterior. Como Drusilla, a flor é incrivelmente forte e impossível de se esquecer - quando Bayard pensa nela, o cheiro incontrolavelmente invade o seu cérebro. Obviamente, um aroma entra mais no campo da emoção do que da racionalidade, tal qual Drusilla. Mais especificamente, esta associa o aroma à coragem e ao heroísmo militar. Aquilo que ela deixa no travesseiro de Bayard é uma prova de que ela admite a bravura da ação dele, mesmo que discorde de sua recusa em usar a violência.


   Um último símbolo interessante é a ferrovia. Ela aparece em dois momentos importantes do romance; em 'Incursão', a ferrovia que passa pela casa da tia Louisa, no Alabama, foi o lugar da locomotiva caçada e condenada, cuja história Drusilla diz a Bayard e Ringo. Quando os garotos vêm para vê-la, suas amarras foram destruídas e os trilhos de ferro envoltos em troncos de árvore. Em 'Um Cheiro de Verbena', a ferrovia é o negócio no qual Redmond e o Coronel Sartoris entram juntos; ela é concluída graças à incrível persistência e personalidade forte do Coronel. Os trilhos perfeitamente retos que atravessam um deserto indisciplinado são um símbolo das conquistas dos seres humanos, de uma ordem imposta sobre a natureza. A completude dos trilhos é um triunfo tangível para o Coronel Sartoris da mesma forma que a sua destruição é um emblema das esperanças esmagadas do Sul. Mas, pelo menos, a memória da locomotiva confederada cruzando os Yankees vive como um gesto de orgulho e desafio, da mesma forma que o assobio insultante do Coronel enquanto fumegando a casa de Redmond.
   Sendo um livro que, com uma bela e consistente trama, reforça os temas e interesses do autor em suas obras, enaltecendo tradição, força familiar e honra, merece muito louvor por parte de quem o lê. Mostra porque os bons autores são os que mantêm uma linha autêntica de interesses, repetindo-os nas suas diversas nuances; além disto, torna universal a realidade que está ao seu redor, executando, com maestria, o verdadeiro papel da Literatura como Arte máxima que deve ser. Perfeito! Uma boa semana a todos!