quinta-feira, 18 de outubro de 2012

18 de Outubro - Dia do Médico

   Hoje, no dia em que se comemora o Dia do Médico, e lembrando-me de que faz algo em torno de 16 anos quando optei por trilhar este caminho, vem-me à memória vários momentos em que me deparei com a arte imitando a vida, mais particularmente quando me vi diante de telas, filmes, vídeos, livros e textos que me inspiraram em cada momento deste caminho, fazendo-me nunca esquecer de importantes e gratificantes conceitos que sedimentam esta belíssima profissão. Para comemorar este dia, permitam-me compartilhar algumas destas formas de arte; é uma forma, outrossim, de me fazer lembrar de bons momentos, únicos e engrandecedores em meu caráter, minha conduta, enfim, em minha vida.
   A primeira recordação é a mais recente. Na primeira postagem neste blog, coloquei uma tela muito bonita de um artista plástico britânico chamado Sir Samuel Luke Fields, e que é conhecida por The Doctor. O cronista Rubem Braga escreveu uma belíssima reflexão sobre este quadro em um momento de sua vida. É algo para guardar na alma! Sublime!

The Doctor, de Luke Fields (1891)
"O Médico"
                                                     Rubem Braga
"... e, de repente, um canto de minha memória que o esquecimento escondera se iluminou,
e eu o vi de novo, do jeito como o havia visto pela primeira vez: o quadro.
Vejo-me, menino, na sala de espera do consultório médico.
Estou doente. Meus olhos assustados passeiam pelos objetos à minha volta, até que o encontram.
Pendia, solitário, na parede branca. Levanto-me e me aproximo, para ver melhor.
Leio o nome da tela: O médico.
É a sala de uma casa. Cena familiar.
Tudo está mergulhado na sombra, exceto o lugar central, iluminado pela luz de um lampião.
Mas a luz é inútil. O lugar mais iluminado é o mais obscuro: uma menina doente.
A clareza dos detalhes só serve para indicar o lugar onde o mistério é mais profundo.
Quando a luz se acende sobre o abismo, o abismo fica mais escuro.
Seus olhos estão fechados, mergulhados em um esquecimento febril.
Nada sabe do que acontece à sua volta. Por onde andará ela?
Infinitamente longe, num lugar ignorado, onde gesto algum pode tocá-la.
Seu braço pende, inerte, sobre o vazio.
O lampião ilumina a menina doente. Mas os olhos de quem examina a tela com atenção desconfiam e percebem a presença de uma outra luz.
Do lampião a querosene
sai uma outra luz que ilumina a menina.
Mas a menina doente sai da luz que ilumina a cena inteira: luz triste, luz sombria,
que inunda a sala com o seu mistério: a luz da morte. Também a morte tem a sua luz.
O artista escolheu de propósito. Se, em vez de uma menina, fosse um velho, a morte seria uma outra.
A morte tem muitas faces. A morte dos velhos, por mais dolorosa que seja,
é parte da ordem natural das coisas: depois do crepúsculo segue-se a noite.
A morte dos velhos é triste, mas não trágica. É conto o acorde final de uma sonata.
O fim é o que deveria ser. Mas a morte de um filho é uma mutilação.
A luz da vida é alegre, brincalhona, esbanja cores,
vive de uma exuberância que pode se dar o luxo de desperdiçar.
Todos os objetos ficam coloridos ao seu toque –
os grandes e os pequenos, os importantes e os insignificantes.
A luz da morte, entretanto, só ilumina o essencial. Naquela sala se sabe a verdade essencial.
O universo inteiro está encolhido. O centro absoluto, em torno do qual giram todos os mundos,
é uma menina doente. De que valem as montanhas e os mares, os homens, seus negócios,
seus amores e suas guerras, se naquele quarto uma menina luta contra a morte?
Num canto, o casal, pai e mãe, imagens da impotência. Nada sabem fazer, nada podem fazer.
A mãe está debruçada sobre uma mesa. Seu rosto está mergulhado no vazio. Só lhe resta chorar.
O marido, de pé, pousa a mão sobre o ombro da esposa. Mas imagino que ela não a sente.
Naquele momento ela não é nem esposa, nem dona de casa: é mãe, apenas mãe.
O gesto do marido, que quererá dizer?
Será uma tentativa de consolo, como se dissesse: “Eu estou aqui...”? Pobre consolo!
Ou será o contrário, uma discreta busca de apoio, como se dissesse:
“Também eu estou desamparado!”? Tudo é uma despedida pronta a cumprir-se.
E o amor, a coisa mais alegre, revela-se como a coisa mais triste.
Diante da morte, o amor ganha cores trágicas.
O pai está vestido com um pesado capote.É estranho! Por que tanto agasalho dentro de casa?
O capote nos conta de sua viagem pelo frio, o desamparo em busca de socorro.
Doutor, venha depressa! A minha filha... Voltou e nem se lembrou de tirá-lo.
Pois que importa o desconforto de um capote dentro de casa quando a filha luta com a morte?
Ao lado da menina,um estranho,assentado: o médico. Pois o médico não é um estranho?
Estranho,sim,pois não pertence ao cotidiano da família.
E,no entanto,na hora da luta entre o amor e a morte,é ele que é chamado.
O médico medita.Seu cotovelo se apóia sobre o joelho,seu queixo se apóia sobre a mão.
Não medita sobre o que fazer.As poções sobre a mesinha revelam que o que podia ser feito
já foi feito. Sua presença meditativa acontece depois da realização dos atos médicos,
depois de esgotados o seu saber e o seu poder.
Bem que poderia retirar-se,pois que ele já fez o que podia fazer... Mas não.
Ele permanece. Espera.Convive com a sua impotência.Talvez esteja rezando.
Todos rezamos quando o amor se descobre impotente. Oração é isto: essa comunhão com o amor,
sobre o vazio... Talvez esteja silenciosamente pedindo perdão aos pais por ser assim tão fraco,
tão impotente, diante da morte.
E talvez sua espera meditativa seja uma confissão: - Também eu estou sofrendo...
Amei esse quadro a primeira vez que o vi,sem entender.
Talvez ele seja a razão por que, quando jovem,por muitos anos,sonhei ser médico.
Amei a beleza da imagem de um homem solitário,em luta contra a morte.
Diante da morte todos somos solitários. Amamos o médico não pelo seu saber,
não pelo seu poder,mas pela solidariedade humana que se revela na sua espera meditativa.
E todos os seus fracassos (pois não estão, todos eles,
condenados a perder a última batalha?) serão perdoados se;
no nosso desamparo,percebermos que ele, silenciosamente,permanece e medita,junto conosco.
Hoje o quadro já não mais se encontra nas salas de espera dos consultórios médicos. A modernidade transferiu a morte do lar,lugar do amor,para as instituições,lugar do poder.
E os médicos foram arrancados dessa cena de intimidade e colocados numa outra
onde as maravilhas da técnica tornaram insignificante a meditação impotente diante da morte.
Mas a bela cena não desapareceu.Sobrevive em muitos,como memória e nostalgia,
em meio às frestas das instituições. A esses médicos,cujos nomes não preciso dizer
(pois eles sabem quem são), que silenciosamente meditam
diante do abismo misterioso da tragédia humana,ofereço minha própria meditação impotente.
Olho para eles com os mesmos olhos do menino que, pela primeira vez,
se defrontou com a beleza dessa cena,na sala de espera de um consultório."


   Outras fontes inspiradoras sobre a nossa profissão são obras literárias, que existem às dezenas! Recordo-me de ter lido alguns livros que foram importantes para sedimentar o gosto pela essência da medicina, que é a pura gratidão. Os livros seguintes são fontes que inspiram quem deseja seguir por este caminho. O primeiro de que me lembro é um grande livro de um autor brasileiro muito importante: Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo. É um livro que vai descrevendo toda a trajetória da profissão, desde a dificuldade em ser aprovado para uma Faculdade de respeito em nosso país até as coisas que vão sendo deixadas de lado durante o percurso, mas que vão sendo constantemente retomadas na mente e o conflito é inevitável. É, em essência, um livro que mostra a busca de si mesmo, o que é ser autêntico, tendo inúmeros temas para discussão, sendo comovente e com passagens tocantes. É um livro de que não irei esquecer! Vale a releitura!




   Outro livro muito marcante para nós médicos é O Físico, de Noah Gordon. Conta a história de Rob Cole, um personagem com um misticismo que o envolve e que quer a todo custo buscar a verdade em tudo, lutando para aprender e seguir a essência da profissão médica no século XI. Vários conflitos também vão sendo apresentados, e é muito interessante como a Medicina da Pérsia da época, do grande médico Avicena tem uma estrutura de aprendizado que lembra muito as Universidades com cursos médicos mesmo mais recentes. Um livro realmente importante e que li no início do meu curso médico. Também vale a releitura.




   Um outro livro, de extrema importância para quem quer se apaixonar pela Medicina em sua essência, com os conflitos reais que vão surgindo ao longo da carreira, e eterna busca pelo que é certo e pelo que deve ser feito em detrimento dos interesses pessoais, pela busca por uma vida digna diante do contexto do trabalho médico, e, principalmente, o gosto pela pureza e simplicidade da gratidão das pessoas diante do ato médico, é A Cidadela, de A.J. Cronin. É muito marcante (o autor, um escocês, entende bem todos os conflitos da profissão, haja vista que era médico; escreve muito bem)! O realismo é chocante; e, diante de todas as dificuldades, o personagem principal atinge seu tão almejado sucesso na carreira; mas, ele fica satisfeito? É o fim de tudo? Este livro é muito comovente! Vale demais ler!




 
   Um último livro marcante para todos os médicos que estão iniciando a carreira é o do Dr. Adib Jatene, chamado Cartas a Um Jovem Médico. Com uma linguagem muito agradável e clara, ele relata toda a sua história na Medicina, desde o início da carreira quando ainda nem existia Cirurgia Cardíaca como a conhecemos hoje, até os tempos mais modernos, como todo o estouro no número de Escolas Médicas pelo país. Mas, relatando toda a sua experiência na profissão, nos mostra ensinamentos fortes e bastante proveitosos. É um livro muito bom para quem quer trilhar este caminho ou para quem já o trilha, mas está apenas começando. A sua sensibilidade é tocante na descrição dos capítulos do livro. Vale a leitura!





   No campo da sétima arte, a inspiração atinge maiores proporções, pois voa mais rápido e é capaz de atingir maior número de pessoas sem a menor dúvida. Seria capaz de dedicar várias postagens neste blog sobre cada um dos filmes que tratam do tema Medicina (escreveria sobre uns 20 ou 30 filmes a respeito do tema sem a menor dúvida), mas ficaria muito grande! Permitam-me escrever rapidamente sobre 6 deles.
   O primeiro seria, para mim, o melhor de todos: Patch Adams - O Amor é Contagioso, de 2001. Se alguém que está lendo este blog já assistiu a este filme e não se emocionou, provavelmente há algo de muito errado com esta pessoa; no mínimo, não prestou atenção alguma ao assisti-lo. É um filme já consagrado sobre a questão de o médico lidar bem com as pessoas, de não serem meros técnicos e se importarem demais com o lado humano dos pacientes. E chama mais a atenção e aumenta nossa comoção quando se percebe que é baseado em fatos. Este não precisa de mais comentários. Uma obra-prima! Se alguém o assistir e não quiser ser médico, é porque tem medo de sangue! :)




   Outro filme fascinante e envolvente é o que apresenta a biografia real de Vivien Thomas, o afro-americano que, na década de 1940, mesmo não sendo médico de formação, desenvolveu a técnica para correção da Síndrome do Bebê Azul (na verdade a Tetralogia de Fallot, que a médica Helen Taussig vinha estudando), juntamente com o cirurgião Alfred Blalock no Johns Hopkins Hospital, nos Estados Unidos da América. O procedimento, que ficou conhecido como Shunt de Blalock-Taussig, foi um marco na Cardiologia Pediátrica, e a dramatização de toda a descoberta, inclusive se demonstrando o importante papel de Vivien, é dramatizado de forma emocionante na película. O título em português, Quase Deuses, é pertinente, mas prefiro o título original, qual seja Something The Lord Made (ou 'algo que o Senhor criou'); o título em inglês traduz mais a importância divina na ajuda aos seres que, na Terra, compartilham sofrimentos de forma altruísta e, guiados por aquele que está lá em cima, ajudam a fazer o bem pelos que sofrem. É um filme excepcional, emotivo, e, sobretudo, de reconhecimento!



 
   Outro belíssimo filme, mais profundo no tocante à visão do paciente, é um filme de 2001 chamado Uma Lição de Vida. Uma professora universitária solene e austera, um tanto fria, descobre em idade produtiva que apresenta um câncer de ovário avançado. Este filme retrata muito a mudança de perspectiva que a morte causa ao ser algo real, quando o mistério do quando e do como se irá morrer já não mais existe. As reações da protagonista à doença são analisadas, além de ser colocada em pauta a interação com um médico que age em função dos resultados e outro que era um ex-aluno dela. Como curiosidade, em inglês, o filme se chama Wit, que pode ser traduzido por inteligência, humor, perspicácia, sagacidade, talento, destreza, compreensão, entre outros; interessante que, ao assistir ao filme, percebe-se que cada um destes significados pode se encaixar no tema. Espetacular! A partir deste filme, interessei-me mais pelo poeta metafísico inglês John Donne, este que inspirou tanta gente, inclusive o grande escritor Ernest Hemingway.




   E, o que falar de Um Golpe do Destino (em inglês The Doctor; mais direto impossível)? Este filme é sempre discutido nas Faculdades de Medicina e Psicologia pelo país (não duvido que pelo mundo). O que acontece quando um médico, sentindo-se onipotente, bem sucedido, de repente se descobre com uma doença sempre chocante como é o câncer (no caso do filme, de laringe) e é colocado na frágil posição do paciente? Como paciente, mais uma vez, percebe-se uma mudança de perspectiva (aliás, a vida tem muito disso: muitas vezes, as coisas não mudam, mas uma simples mudança de perspectiva, faz tudo fazer sentido ou se tornar muito mais claro); são colocados em pauta o que os pacientes enxergam dos médicos, o que deve ser um verdadeiro médico, como é sofrer como o paciente e como se relacionam os pacientes que compartilham doenças semelhantes. É um filme marcante a que todo médico já assistiu ou deveria assistir. Um clássico da videoteca médica, sem dúvida!



     

   Outra película que merece destaque é Uma Chance Para Viver (em inglês Living Proof), que é baseado num livro chamado Her-2, e dramatiza a história também real do médico norte-americano Dennis Joseph Slamon em sua busca incessante pela cura do câncer de mama. Na verdade, ele descobre um marcador presente em aproximadamente 30% das neoplasias malignas da mama e o filme retrata a sua luta para desenvolver um medicamento capaz de agir nas neoplasias que contenham tal marcador. Durante o filme, há brigas de laboratório e os custos são colocados friamente acima das vidas das mulheres que, desesperadamente, participam dos estudos em busca da redenção, com a esperança que jamais se deve abster de quem as tem de forma tão fiel e autêntica. É um filme bonito e sensível, mostrando a importância que pode ter um objetivo de vida de uma pessoa na vida de muitas outras, e as dificuldades reais que se apresentam na luta para realizar tal sonho. Deve ser visto, revisto e aplicado!




   O último filme que me inspira é O Homem Elefante, com Anthony Hopkins no papel de um médico que, no real papel de servidão e empatia, tenta integrar à sociedade um homem portador de Síndrome de Proteus (alguns acham que pode ser neurofibromatose), uma condição genética que se traduz no crescimento exagerado de porções do corpo, podendo ser estruturas cutâneas e subcutâneas, o que leva a um aspecto grotesco e aberrante por causa da doença (daí o título do filme). Com um clima noir, com ambientes circenses e o retrato de uma Inglaterra vitoriana, o filme trata de ideias preconcebidas de uma sociedade leiga mas que dita tais preconceitos de forma explícita e sem misericórdia; um médico esclarecido e sensível tenta ajudar o doente Joseph Merrick (que existiu e inspirou o filme) que foi descoberto por ele como atração de circo, onde era apresentado como um ser horripilante e que se alimentava somente de batatas, vivia enjaulado e era muito maltratado pelo proprietário do estabelecimento. O filme é trágico e mostra a tentativa de ajuda persistente do médico ao doente, que era apresentado como a 'versão mais degradante do ser humano'. Uma película forte em que o tema talvez verse muito mais sobre a dignidade humana do que qualquer coisa!




   Para encerrar esta humilde dedicatória à profissão que escolhi e da qual jamais irei sair porque se trata, acima de tudo, de gostar de servir sem esperar nada em troca, e por já ter percebido há algum tempo que, mesmo a mais poderosa das criaturas humanas, chora como criança e se vê frágil como um fino cristal límpido e claro, e neste momento particular, eu quero muito ser um pouco da luz e da esperança que, se não para sanar o sofrimento, aparece para estar ao lado, ouvir e confortar, e por entender, enfim, que todos sofrem, não importa quais tenham sido suas vitórias, suas conquistas, ou suas derrotas, suas quedas, gostaria de deixar uma mensagem de um médico norte-americano que trata do erro médico. Ele fala tão brilhantemente, de forma tão comovente, que merece ser destacado aqui (é minha forma humilde de enaltecer algo que inspira e faz crescer). O médico se chama Brian Goldman e é famoso no país por falar sobre o tema. Como o vídeo no YouTube não tem legenda em português, eu deixo o link para o vídeo (veja o texto sublinhado logo abaixo) com a possibilidade de se colocar legendas ao se passar o cursor do mouse pelo vídeo no site do TED - Ideas Worth Spreading (aliás, este site tem muitos vídeos inspiradores; deixo a dica). Uma boa semana a todos!

Médicos cometem enganos. Podemos falar sobre isso?