sábado, 27 de outubro de 2012

'Dublinenses' e 'Um Retrato do Artista Quando Jovem'

   A nossa vida está sempre nos pondo à prova. Sabe aquelas semanas em que as coisas parecem não caminhar conforme planejamos, em os dias parecem noites, em que você se sente cansado e que, quando parece que as coisas ruins, enfim, vieram a acabar, elas, de fato, pioram? É como a onda do mar quando este está enchendo; você tenta escapar da corrente que te arrasta e, quando parece que escapou e finca os pés em areias mais firmes, eis que uma forte onda está logo atrás de você para lhe trazer o desequilíbrio e, por fim, a queda na água. E, ao engolir água salgada e permitir, sem querer, que a água entre pelo nariz, este arde de forma tal que parece que alguém está dizendo: '- Cuidado; ao menor sinal de erro ou descuido, vai doer em algum lugar!' E o pior é quando nos chega uma péssima notícia no instante particular em que um grande problema tinha acabado de ser resolvido...
   Mas estas 'provas' em nossa vida devem ter um profundo sentido; a vida não deve ter sentido algum quando não se tem mais nada a enfrentar, quando não se exercita o que se aprendeu com os erros anteriores, quando já se conquistou tudo o que se queria (nunca se conquista tudo o que se quer, pois, após cada conquista, parecem surgir novas perspectivas, novas prioridades, e nunca se está satisfeito; isto parece estar na natureza do ser humano). E que jeito melhor de aprender a contornar as grandes provas da vida do que mergulhar nela por inteiro, do que viver 'experiências' na vida e com a vida! Antoine de Saint-Exupéry escreve no primeiro e inspirador parágrafo de Terra dos Homens: "Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer; para superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramenta. Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos à natureza; e a verdade que ele obtém é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas."Neste belíssimo livro, autobiográfico, o autor nos mostra o que aprendeu ao desbravar o mundo do correio aéreo; mostra a importância, em sua vida, de sua experiência com o avião.


Antoine de Saint-Exupéry

   E o importante é que se tenha uma consciência de que o ambiente nos impregna com sua rotina, com sua insistência, e que dela tentamos sair um pouco, mas muitas vezes esta tentativa é frustra. Sobre isso escreveu James Augustine Aloysius Joyce, mais conhecido como James Joyce. Este autor nasceu no subúrbio de Dublin em 2 de fevereiro de 1882 no meio de uma família católica de classe média. A condição financeira de sua família viria a declinar logo após seu nascimento, e durante sua vida chegou a viver em várias localidades, tendo falecido em Zurique em 13 de janeiro de 1941. Sua primeira obra publicada foi Música de Câmara (Chamber Music), em 1907, como um conjunto de poesias. Em 1914, ele viria a publicar um livro que tinha desenvolvido mesmo antes do anterior: Dublinenses (Dubliners); este livro de contos continha muitas analogias da sociedade de então, embora tenha sido escrito muitos anos antes de ser publicado, e isto levantou a suspeita de que os contos teriam um cunho de difamação, com situações grandemente similares a lugares e personagens reais. Embora neste livro o autor ainda não tenha usado aquilo que o caracterizaria para a posteridade, o fluxo de consciência (que alcançaria sua aplicação máxima em obras grandes posteriores, como Ulysses e Finnegans Wake, mas que já se inicia com Um Retrato do Artista Quando Jovem), a obra é magistral, com contos que contem analogias mesmo para situações mais recentes na vida de todos nós, situações cotidianas e que, ao serem feitas as devidas analogias, permite-se que uma centelha de esperança se apresente após uma crítica consistente daquilo que nos permeia.


James Joyce

   É importante que se perceba que a Irlanda permeia toda a obra do autor, especialmente a história político-cultural do início do conturbado século XX. Neste período, os irlandeses buscavam um resgate da língua e cultura tradicional de seus precedentes, numa espécie de 'Renascimento' irlandês, tentando se desvencilhar e se libertar da influência da Grã-Bretanha em todos os sentidos. Em última análise, este renascimento, iniciado no final do século XIX, deu ao irlandês um maior sentido de orgulho na sua identidade. A morte de um grande líder de todo esse movimento, Charles Stewart Parnell, em 1891, bem como todos os escândalos envolvendo este (como o de adultério, ao ter se casado com a esposa de um grande amigo após algum tempo de vida como amantes), frustrou as lutas pela independência e unidade da Irlanda. Com isto, o país assistia a uma divisão cada vez maior entre católicos e protestantes, conservadores e nacionalistas. E tal panorama político, social, cultural e religioso forma um cenário para a escrita complexa de Joyce, que apesar de ter morado mais tempo pelo continente europeu, fora da Irlanda, jamais deixou de tratar de assuntos sobre sua terra natal, tendo sido o foco de todo o seu trabalho literário.
   Em Dublinenses, portanto, é como se o ambiente tentasse aprisionar a consciência dos personagens, que, em várias passagens do livro, dão mostras de que de fato existe tal consciência em cada um deles, mas com um predomínio do ambiente a se sobrepujar sobre a vontade que têm os personagens de irem por outros caminhos, de se libertarem para algo diferente em suas vidas. O livro contém 15 contos que retratam a vida na capital irlandesa; Joyce se concentra em crianças e adultos que contornam a classe média, como empregadas domésticas, empregados de escritório, professores de música, estudantes, meninas de loja, vigaristas e empresários sem sorte. O autor imaginou sua coleção como um espelho com que o irlandês poderia se observar e se estudar. Na maioria das histórias, usa-se uma voz narrativa isolada, mas altamente perceptiva, que exibe em detalhes precisos essas vidas para o leitor. Em vez de dramas intrincados com enredos complexos, essas histórias esboçam situações cotidianas em que muito não parece acontecer (por exemplo, um menino visita um bazar, uma mulher compra doces para festas de férias, um homem reencontra um velho amigo com algumas bebidas, etc.). Embora estes eventos não pareçam ser muito profundos, as revelações intensamente pessoais e muitas vezes trágicas dos personagens certamente o são. As histórias em Dublinenses  perscrutam as casas, corações e mentes de pessoas cujas vidas se conectam e se misturam através do espaço compartilhado e espírito de Dublin. Um personagem de uma história vai mencionar o nome de um personagem de outra história, e algumas histórias, muitas vezes, têm configurações que aparecem em outras histórias. Tais conexões sutis criam um sentido de compartilhamento de experiência, e evoca um mapa da vida em Dublin que Joyce voltaria a repetir várias e várias vezes em suas obras posteriores.


Capa de 'Dublinenses'

   Alguns temas fundamentais se apresentam em Dublinenses. A prisão da rotina é o mais importante e explícito destes temas; rotinas repetitivas e restritivas, detalhes mundanos de cada um marca a vidas dos personagens no livro, prendendo-os em círculos de frustração, contenção e violência. As consequências mais consistentes de se seguir rotinas mundanas são a solidão e o amor não correspondido. A circularidade da vida desses dublinenses os prende em armadilhas, impedindo-os de serem receptivos a novas experiências e atingir a felicidade. O desejo de fuga é outro tema evidente; os personagens são cidadãos da capital irlandesa, mas muitos desejam fugir e se aventurar em outros países; tais anseios, entretanto, nunca chegam a ser realizados pelos protagonistas das histórias. Mais frequentemente do que oferecer uma fuga literal de um lugar físico, as histórias tratam de oportunidades para escapar de restrições menores, mais pessoais. Assim, o impulso para escapar de situações infelizes define Dublinenses, bem como a incapacidade de efetivamente realizar tal processo. Um último grande tema é a intersecção entre a vida e a morte. Interessantemente, o livro se inicia com 'As Irmãs', que explora a morte e o processo de lembrar dos mortos (inclusive, este conto inspirou um filme chamado Dúvida, de 2008, com os grandes Philip Seymour Hoffman e Meryl Streep) e termina com 'Os Mortos', que invoca a calma silenciosa da neve que cobre tanto mortos quanto vivos. Estas histórias enfatizam o foco consistente sobre o ponto de encontro entre a vida e a morte. A morte lança uma sombra sobre o presente, chamando a atenção para os erros e falhas que as pessoas cometem, geração após geração. Essa sobreposição ressalta o interesse de Joyce em ciclos de vida e sua repetição, além de sua preocupação em descrever os que seriam os 'mortos vivos' (pessoas que demonstram pouca excitação ou emoção ao seguirem pela vida, exceto quando se trata dos empecilhos e atrasos cotidianos). A monotonia da vida em Dublin leva os dublinenses a viverem em um estado suspenso entre a vida e a morte em que cada pessoa tem um pulso, mas é incapaz de profunda e efetiva ação de suporte à vida.
   Os motivos que Joyce apresenta para desenvolver os temas também são muito interessantes. Um deles é a paralisia; na maioria das histórias de Dublinenses, um personagem tem um desejo, enfrenta obstáculos para atingi-los, então, finalmente, cede e para, de repente, toda a ação. Estes momentos de paralisia mostram a incapacidade dos personagens para mudar suas vidas e reverter as rotinas que dificultam seus desejos. Ao longo do livro, este estado sufocante aparece como parte da vida diária de Dublin, e que todos os dublinenses finalmente reconhecem e aceitam. Outro motivo desenvolvido de forma cabal é o da epifania (epifania é como aquele momento do 'Eureka', de Arquimedes, embora possa ter uma conotação mais religiosa); os personagens do livro evidenciam momentos de pequenas ou grandes revelações nas coisas do cotidiano, mas estes momentos não trazem novas experiências ou possibilidade de reforma, como poder-se-ia esperar de tais momentos. Pelo contrário, estas epifanias permitem aos personagens entenderem melhor suas circunstâncias particulares, geralmente cheias de tristeza e rotina, mas para as quais posteriormente retornam com resignação e frustração. Algumas vezes, a epifania ocorre somente no plano narrativo, como se o narrador estivesse mostrando ao leitor que o personagem houvera acabado de perder um momento de auto-reflexão. Este motivo destaca a rotina repetitiva de esperança e aceitação passiva, que marca cada um dos retratos, bem como a condição geral humana. Mas o livro não é de todo trágico, e no último conto, 'Os Mortos', o protagonista, Gabriel, tem uma revelação que parece mostrar ao leitor uma esperança de que as coisas, enfim, mudarão, e apresenta-se uma conotação mais otimista para esta revelação. Um outro motivo é o da traição; engano e traição é uma cicatriz presente em quase todos os relacionamentos no livro, demonstrando o desconforto com que as pessoas tentam se conectar umas com as outras, tanto platonicamente quanto romanticamente. Este ato evoca não apenas o sentido de deslocamento e humilhação que todos os dublinenses temem, mas também a tendência das pessoas para categorizarem muitas ações como 'traição', a fim de transferir a culpa de si para os outros. Um último grande motivo é o da religião; referências a sacerdotes, crença religiosa, experiência espiritual, aparecem ao longo do livro, e acabam retratando uma pintura pouco lisonjeira da religião. A presença de tantas referências religiosas sugere que os dublinenses ficam presos na armadilha de ter que ficar pensando na vida após a morte, e não em suas vidas como estão.
   Os símbolos usados para representar conceitos no livro são muito interessantes. Um deles mais evidente é o da janela; no livro, as janelas geralmente evocam ou antecipam encontros e situações que estão prestes a acontecer. As janelas também marcam o limite entre o espaço interno e o mundo externo, e através delas os personagens observam suas próprias vidas e as vidas dos outros. Outro símbolo muito marcante é o do anoitecer e da noite; a Dublin de Joyce é continuamente escura. Não há pancadas de luz solar ou paisagens alegres para iluminar as histórias do livro; em vez disto, um espectro de cinza e preto ressalta o tom sombrio da vida dos personagens. Estes cenários escuros evocam a 'meia-vida' ou o estado intermediário que os personagens do livro ocupam, física e emocionalmente, sugerindo a mistura de vida e morte que marca toda a história. Neste estado, a vida pode até existir e continuar, mas a escuridão torna a experiência dos dublinenses terrível e condenada. Um último e marcante símbolo é o da comida; quase todos os personagens do livro são apresentados em algum momento comendo ou bebendo, e na maioria dos casos a comida serve como um lembrete tanto para a ameaça do tédio da rotina como para as alegrias e dificuldades da união. Joyce utiliza esses momentos com a comida para retratar seus personagens e suas experiências através de uma substância que tanto sustenta a vida como simboliza suas restrições.
   Por tudo isto, Dublinenses é um livro primoroso, que deve ser lido e utilizado como manual para a vida, pois ensina os perigos da rotina mas que não tira a esperança, no seu momento mais final, de que a consciência é mais forte e que pode se sobrepujar à vontade do ambiente que envolve cada um de nós. Ainda, esses retratos podem muito nos ensinar sobre o que acontecerá se nos rendermos à prisão de tal rotina de forma flutuante e sem crítica. E, o mais importante, o livro sugere que é possível que haja um rumo determinado por nós em nossas vidas, e não determinado pelo ambiente. Livro deslumbrante, para ler e aprender! Digo e repito: livros são vivências que permitem que aprendamos sem que precisemos sofrer, de fato, uma experiência! Permitem que se conheçam culturas, sociedades e mundos sem que, de fato, se viva ou conviva com estes em seus ambientes.
   Já em Um Retrato do Artista Quando Jovem (A Portrait of the Artist as a Young Man) o sentido da ideia muda; enquanto em Dublinenses o ambiente impõe uma análise consciente do mesmo aos personagens, embora nem sempre estes tenham tal consciência, em Um Retrato do Artista Quando Jovem, o personagem principal faz emergir sua consciência sobre o ambiente, dando direção autêntica para sua vida ao longo do livro, e apresentando várias experiências nítidas que o levaram a seguir a sua grande vocação: de ser artista (mais precisamente no campo da arte literária). O que é bastante interessante e que dá sentido a tudo é que, apesar de ser ficção, o livro tem forte cunho auto-biográfico, como se Joyce estivesse mostrando várias situações em sua vida que o levaram a escolher ser escritor. Publicado em 1916, o livro apresenta a história de um dos personagens mais interessantes da literatura: Stephen Dedalus. Sua vida vai sendo demonstrada de modo profundo, com a trilha que o leva à transição para a maturidade e o autoconhecimento. A narrativa é apresentada de forma magistral com a técnica do 'fluxo de consciência' desenvolvido pelo próprio autor, podendo ser entendida como uma espécie de 'monólogo interior'. O que se apresenta são os pensamentos do personagem, e toda as conexões muitas vezes incrompreensíveis que estes podem desenvolver. Muitas vezes, isto torna várias passagens do livro de difícil compreensão após uma leitura despreocupada e sem a devida atenção, exigindo alguns repaginadas para o melhor entendimento (é como se o autor apresentasse o personagem dizendo alguma coisa ao mesmo tempo em que vários e diferentes fluxos de seu pensamento fossem sendo descritos, muitas vezes não existindo uma conexão lógica nestes, assim como é de fato na realidade, e você não sabe se o personagem pensa e está descrevendo o pensamento ou algo que realmente existe e se o que se encontra no parágrafo seguinte trata do mesmo pensamento do parágrafo anterior); entretanto, não é um livro difícil de entender em todos os momentos, e o que se obtém de aprendizado com o mesmo, e com algumas belíssimas passagens que ele contém, tornam este um livro arrebatador e profundo! Obra-prima essencial!


Capa de 'Um Retrato do Artista Quando Jovem'   

   Os temas são engrandecedores. O primeiro deles que é evidente é o desenvolvimento da consciência individual; a técnica do 'fluxo da consciência', em que o pensamento é apresentado de dentro do personagem, e não como sendo a descrição de sensações do ponto de vista de um observador externo, faz do livro um desenvolvimento da mente de Stephen. Até o final do romance, Joyce desenvolve o retrato de uma mente que atingiu a idade adulta emocional, intelectual e artística. O desenvolvimento da consciência de Stephen se torna mais interessante na medida em que, sendo este um retrato do próprio autor, nos dá uma visão para o desenvolvimento de um gênio literário. As experiências de Stephen apontam para as influências que levaram Joyce a ser o grande autor que ele é considerado atualmente. Outro tema que se apresenta é o das armadilhas do extremismo religioso; educado em uma família católica devota, Stephen inicialmente atribui uma crença absoluta na moral da igreja. Como um adolescente, esta crença leva a dois extremos bastante opostos, sendo que ambos são prejudiciais: na primeira, ele cai no pecado extremo, repetidamente dormindo com prostitutas e virando completamente as costas para a religião (embora pecando voluntariamente, ele sempre está consciente de que isto viola os preceitos da igreja); então, quando é exposto ao belíssimo sermão do padre Arnall (só este já vale o livro...), ele retorna ao catolicismo, saltando para o outro extremo, tornando-se um indivíduo perfeito, chegando à proximidade da devoção religiosa e da completa obediência aos preceitos da igreja. Em um determinado momento, entretanto, Stephen acaba percebendo que esses dois extremos são falsos e prejudiciais; ele não quer levar uma vida completamente debochada, mas também não concorda com o catolicismo austero por achar que isto não permite uma experiência completa do ser humano. Stephen finalmente chega a uma decisão quando vê uma bela jovem se banhando nas águas do mar; para ele, a jovem é um símbolo de pura bondade e da vida vivida ao máximo. Um outro tema é o do papel do artista; no final do romance, Stephen acaba deixando sua família para trás e seguindo para o exílio, mas com a ideia de dar voz à sua comunidade, e jamais negando-a. Joyce sugere que o verdadeiro artista é uma figura que deve viver isolada, pelo menos em algum momento de sua vida. Outro grande tema é o o da necessidade de autonomia da Irlanda; Stephen acaba entendendo seu povo como pacato e muito subserviente de fato. Usando a linguagem emprestada do inglês, ele planeja escrever num estilo que será tanto autônomo da Inglaterra como uma espécie de verdade para o povo irlandês.
   Alguns motivos são muito interessantes, demonstrando o gosto e apreço profundo de Joyce pela língua, pelas letras. Um deles são as músicas; o cantar é apresentado de forma recorrente no livro, e isto representa um gosto particular de Stephen pelos sons das palavras; na verdade, a música apela para a parte de Stephen que quer viver a vida ao máximo. Vemos este aspecto da música perto do fim do romance, quando ele, de repente, sente uma paz ao ouvir uma mulher cantando; a voz dela o leva a se lembrar de sua conclusão em deixar a Irlanda e celebrar a vida como escritor. Outra demonstração de apreço de Stephen pelos sons é a frequente apresentação de orações, músicas seculares e frases em latim; estes ainda servem para demonstrar o verdadeiro estado de espírito do personagem em vários momentos do livro. Um motivo bastante interessante é o do vôo; o próprio nome do personagem, Stephen Dedalus, remete à ideia de vôo. Na mitologia grega, Dédalo, é o artesão que construiu o Labirinto de Creta para o rei Minos. Minos mantém Dédalo e seu filho, Ícaro, presos na ilha de Creta; mas Dédalo faz planos para escapar com um conjunto de penas, cordéis e cera, construindo um par de asas para si e outro para seu filho. Dédalo escapa com sucesso, mas Ícaro voa muito alto, mais perto do sol, e este derrete a cera de suas asas,  que o leva a cair no mar e, por fim, à morte. No contexto do livro, podemos ver Stephen como ambos, Dédalo e Ícaro, uma vez que o pai de Stephen também tem por sobrenome Dedalus. Com essa referência mitológica, Joyce implica que Stephen deve sempre equilibrar o seu desejo de fugir da Irlanda com o perigo de superestimar suas próprias habilidades, o equivalente intelectual do vôo de Ícaro muito perto do sol. Para diminuir os perigos de tentar ser grande muito cedo, Stephen gasta um bom tempo na universidade desenvolvendo sua teoria estética completamente antes de, enfim, poder deixar a Irlanda e começar a escrever a sério. Os pássaros que aparecem na parte final do último capítulo são interpretados como um símbolo de que ele se encontra completamente formado como artista e de que é chegada a hora de tomar vôo próprio. Genial!


Ícaro

Ícaro e Dédalo

   Um importante símbolo do livro é o da personagem Emma. Ela aparece apenas de relance durante a maior parte da vida do jovem Stephen, e este nunca chega a conhecê-la como pessoa nesta fase de sua vida. Em vez disto, ela se torna um símbolo de amor puro, não contaminado pela sexualidade ou realidade. Ele adora Emma como o ideal de pureza feminina. Quando ele passa por sua fase de devoção religiosa, ele imagina a recompensa por sua piedade na Terra como a união com ela no paraíso. No final, na universidade, acontece uma conversa entre eles de fato, quando Stephen percebe que ela é uma pessoa real, amigável, pouco comum, mas de forma alguma a deusa idealizada antes por ele. Esta visão mais equilibrada de Emma espelha o abandono de Stephen dos extremos do pecado absoluto e da devoção desmedida, em favor de uma vida de equilíbrio, tendo como única devoção aquele dedicada à beleza.
   Por fim, Um Retrato do Artista Quando Jovem é um livro primoroso, que deve ser lido como deleite literário mas também como instrumento de aprendizado profundo, servindo como referência real a ser aplicada nas situações da vida em que o ambiente procura nos vencer a todo custo, e em que um problema que se resolve nunca é o último, sendo, na verdade, e não poucas vezes, sucedido imediatamente por um outro. O ser humano, como apresentado nos livros, principalmente no segundo deles, deve ser maior do que o ambiente, e a consciência deve estar acima deste, determinando o rumo consistente da vida de cada um de nós. Os obstáculos nos ajudam a crescer, devendo existir para que não nos acomodemos no longo, e por outro lado breve, caminho da vida. Ainda, estes livros são o preâmbulo perfeito da grande obra-prima de James Joyce, o colossal Ulysses, que obviamente ganhará uma postagem a parte neste humilde blog. Leituras obrigatórias!