sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Rapto de Proserpina

   A natureza muito nos ensina com a beleza e o misticismo que envolve as estações do ano. A ideia retratada no ciclo que se completa anualmente com as quatro estações é algo que conforta em muitos momentos de nossas vidas. Percebem-se momentos de tristeza, de brilho e luz, de introspecção, de sair para aproveitar o dia, de beleza que dura mas não é eterna, de vida agitada e de vida contida, etc.. Este ciclo nos ensina que é possível sempre recomeçar, por mais difícil ou fora da expectativa que possa parecer em várias situações, por maiores que sejam as adversidades, e que não pode ser diferente do que ocorre em vários momentos de nossas vidas, haja vista fazermos parte da natureza e sermos um todo constituído da mesma matéria que a compõe. Assim, não é difícil perceber como, desde muito tempo, mesmo quando os deuses eram muitos, e não um só, quando a ciência ainda vagava longe da mente humana, o homem tenta explicar essa magia da natureza de forma altamente criativa e respeitosa. 
  Sob a visão mitológica, conta-se que há, no vale do Ena, um lago escondido no bosque, este protegendo as águas do lago dos raios ardentes do sol; neste terreno, que é úmido, encontram-se flores as mais belas e que a Primavera reina ali perpetuamente. Proserpina, ou Prosérpina (na mitologia grega, Perséfone), que era filha de Júpiter (ou Zeus) e Ceres (ou Deméter; esta a deusa das plantas que brotam e do amor maternal), encontrava-se a brincar ao redor do lago com algumas companheiras, colhendo lírios e violetas, enchendo seu cesto e seu avental com estas flores, quando Plutão (ou Hades) a viu, apaixonou-se e a raptou. A indefesa Proserpina gritou, pedindo ajuda à mãe e às companheiras, mas quando, apavorada, largou os cantos do avental e deixou cair as flores, sentiu, infantilmente, sua perda como um acréscimo ao seu sofrimento. Plutão excitou os cavalos, chamando-os cada um por seu nome e soltando sobre suas cabeças e pescoços as rédeas cor-de-ferro. Quando chegou ao rio Cíano e este se opôs à sua passagem, o deus feriu a margem do rio com seu tridente, a terra se abriu e lhe deu passagem para o Tártaro.
   A partir daí, Ceres segue de forma persistente e desesperadora em busca de sua muito querida filha. Depois de muitas passagens que recheiam essa belíssima parte da mitologia, conta-se que, enfim, Ceres se apresentou diante de Júpiter e implorou a este que intercedesse de modo a conseguir a restituição de sua filha. Este, sensibilizado com o sofrimento daquela, consentiu, mas com uma condição: a de que Proserpina não tivesse tomado qualquer alimento durante sua permanência no mundo inferior; de outro modo, as Parcas proibiam sua libertação. Deste modo, Mercúrio (ou Hermes) foi mandado, acompanhado da Primavera, para pedir Proserpina a Plutão. O ardiloso deus do submundo consentiu, mas infelizmente a donzela havia aceitado algumas sementes de romã que ele lhe havia oferecido. Isto foi suficiente para impedir sua completa libertação, contudo firmando-se um acordo pelo qual Proserpina passaria metade do tempo com sua mãe e o resto com seu marido, Plutão
   Ceres ficou satisfeita com tal arranjo e, sempre que Proserpina sobe à terra, sua mãe restitui favores sobre esta; assim, durante metade do ano, Ceres brinda a terra com as estações da Primavera e do Verão, representando sua felicidade pela presença de sua filha; quando esta retorna ao submundo na outra metade do ano, Ceres fica triste, e surgem o Outono e o Inverno. No fundo, esta estória de Ceres e Proserpina é uma alegoria; a filha representa a semente do trigo, que, quando enterrada no chão, ali fica escondida, ou seja, é levada pelo deus do submundo; depois, reaparece, ou seja, quando ela é restituída à sua mãe, e a Primavera surge, com os grãos dando frutos e as flores desabrochando (é o período da colheita).
   Este episódio mitológico foi retomado e melhor acabado a partir do Livro V, de Metamorfoses, a obra-prima do poeta romano Publius Ovidius Naso (mais conhecido como Ovídio). Influenciou tanto a   cultura que viria que não se contam os poemas, as telas e as esculturas que surgiram sob forte e pura inspiração deste episódio. Vários artistas plásticos, incluindo Rembrandt, representaram este sequestro em suas telas; as representações são muito variadas, indo do paradisíaco e angelical ao sombrio e tenebroso. 

The Abduction of Proserpina, de Rembrandt (1631)

El Rapto de Proserpina, de Ulpiano Checa (1888)

Detalhe de Raub der Proserpina, de Luca Giordano (1684-1686)

The Rape of Proserpine, de Nicolò dell'Abbate (1570)

Raub der Proserpina, de Luca Giordano (1684-1686)

The Rape of Proserpine, de Carlo Francesco Nuvolone (séc XVII)

Il Ratto di Proserpina, de Nicolas Mignard (séc XVII)

The Rape of Proserpine, de Simone Pignoni (1650)

The Rape of Proserpine, de John Alexander (1721)

The Rape of Proserpine, de William Turner (1839)

The Rape of Proserpine, de Cristoph Schwartz (1573)

   Quando programando nossa viagem à Itália em 2010, em pesquisa pela internet, rapidamente me chamou a atenção a imagem abaixo:




   Quando vi pela primeira vez, fiquei sem saber do que se tratava ao certo: seria uma foto? Uma pintura? Uma escultura? Não sabia, naquele momento particular, que se tratava de uma das mais belas esculturas que já pude contemplar. Sim, tratava-se de uma escultura!!! As mãos perfeitas que tocavam o corpo do que parecia ser uma mulher, com sua carne macia e elástica, já apresentavam um detalhe de algo grandioso e, sem dúvida, eterno. Em sendo uma escultura, era quase impossível crer, sem ver ao vivo, que não era na verdade massa de modelar, mas mármore branco.
   Na cidade eterna, Roma, existe um lugar chamado Villa Borghese, que contém um jardim imenso, no estilo naturalístico inglês, e que abriga uma importante galeria da cidade: a Galleria Borghese. Nesta, estão presentes várias importantes esculturas de um dos maiores escultores de todos os tempos: Gian Lorenzo Bernini (1598-1680). Ele foi tão importante para Roma que é difícil imaginar a cidade, com todos os seus pontos turísticos, e mesmo os mais sutis, sem ver algo que ele criou ou projetou. A sua obra foi redescoberta quando do lançamento do livro Anjos e Demônios, de Dan Brown, e com o filme homônimo, estrelado por Tom Hanks. Se analisado de forma um pouco mais detalhada, vemos que o conteúdo que se destaca como pano de fundo do livro e do filme é quase que como uma ode a Bernini. Basta lembrar que importantes obras deste escultor, arquiteto, artista plástico, desenhista, cenógrafo, etc., distribuem-se pela cidade de Roma e pelo Vaticano: a Praça de São Pedro (com todas as suas colunas), o Castelo de Santo Ângelo, o Baldaquino da Basílica de São Pedro, o sepulcro do papa Urbano VIII, o altar do Santíssimo Sacramento, a Fonte dos Quatro Rios, a Fonte da Barca, a Fonte de Tritão, uma escultura importante de Davi, uma belíssima escultura de Apolo e Dafne, uma escultura magistral do Êxtase de Santa Teresa, vários bustos, entre inúmeras outras importantes obras.
   Depois de alguma pesquisa sobre Roma e sobre o escultor, o nosso passeio pela cidade foi como um descobrimento e contemplação de sua obra. Foi assim que, em uma das tardes na cidade, passeamos pela Villa Borghese e nos dirigimos à Galleria Borghese de forma ansiosa, mas com aquela ansiedade boa, como que antecipando um momento de êxtase profundo diante de algo belo e sublime. Foi assim que vimos O Rapto de Proserpina, de Bernini, e jamais vou me esquecer de quando fiquei diante da escultura pela primeira vez.


O Rapto de Proserpina, de Bernini (1621-1622)

O Rapto de Proserpina, de Bernini (1621-1622)

   Quando Bernini esculpiu esta obra, ele tinha apenas 23 anos. Ela foi patrocinada por Scipione Borghese, um cardeal que era um verdadeiro mecenas para Bernini e Caravaggio. Em 1622, o cardeal Scipione deu a obra para outro cardeal, Ludovisi, que a levou para sua vila, onde ficou até 1908, ano em que o estado italiano comprou a escultura e a trouxe para a Galleria Borghese, onde se encontra até hoje. 
   Bernini esculpiu os 2 metros e 95 centímetros de altura desta obra para que fosse vista pela frente, pois se observa a energia explosiva do rapto ocorrendo em sua plenitude, e a tentativa patética e inútil de Proserpina de se defender é apresentada. Visualizando a escultura desde a esquerda, percebe-se Plutão como um homem forte, poderoso, a agarrar uma jovem voluptuosa. 

   
O Rapto de Proserpina, de Bernini (visão pela esquerda e por trás)
   

   Ao se mudar o ponto de vista suavemente pela frente, percebe-se o olhar de Plutão meio confuso e ao mesmo tempo com um certo contentamento em ver Proserpina o negando e querendo se soltar de suas mãos. Ainda pela frente, a posição de Proserpina se apresenta de forma tal que é como se Plutão estivesse levantando um troféu, o SEU troféu, como se mostrando para os que estão vendo e dizendo 'Vejam, o meu troféu', e que levará para o submundo. Indo para a direita, percebe-se Proserpina tentando desesperadamente se libertar, ainda que inutilmente; empurrando o rosto de Plutão com uma das mãos e com a cabeça pendendo para o lado oposto, sente-se o seu desespero. Seus lábios estão um pouco abertos, e quase se escuta ela gritando em seu sofrimento, clamando por ajuda. E vendo mais perto, no detalhe de seu rosto, as lágrimas são de uma realidade tamanha que parece uma atriz que chora posando para uma tela. Realmente impressionante! 

   
O Rapto de Proserpina, de Bernini (visão pela frente, detalhe)
   

O Rapto de Proserpina, de Bernini (visão pela direita)

O Rapto de Proserpina, de Bernini (detalhe do rosto de Proserpina)


O Rapto de Proserpina, de Bernini (detalhe do rosto de Proserpina)

   Bernini, sem dúvida alguma, caprichou nos detalhes desta obra, sendo as mãos que apertam o abdome e a coxa da jovem, além da pele e da carne desta, de uma realidade e perfeição que tocam profundamente aqueles que vêem a obra e a contemplam calmamente, e não se consegue sair de perto da escultura enquanto todos os detalhes sejam vasculhados e compreendidos, e de novo se tenta contemplar o todo uma última vez. Dando suporte ao grupo, vê-se Cérbero, o cão de três cabeças representado por Dante Alighieri em sua obra, e que olha em três direções diferentes, sempre a guardar as portas do inferno.


O Rapto de Proserpina, de Bernini (detalhe de Cérbero)


O Rapto de Proserpina, de Bernini (detalhe de Cérbero)
   
      Dizem quem Bernini tirou inspiração para esta escultura de um outro escultor italiano, Pietro da Barga. Este havia esculpido o seu Rapto de Proserpina no século anterior (XVI), e este se encontra atualmente em Florença.


O Rapto de Proserpina, de Pietro da Barga (1580)

   Um último detalhe sobre a escultura de Bernini é que a interpretação da obra talvez se explique por dois versos que o escultor colocou na base da obra e que pertencem ao papa Urbano VIII. Por um lado, a escultura representaria a brevidade da vida e o perigo da morte; por outro, representaria o fim do verão e um inverno que estaria por chegar mais adiante. 
   É, sem dúvida, uma belíssima obra de um gênio que deixou sua marca no mundo; é eterno! A exaltação é maior quando lembro de que Bernini tinha somente 23 anos quando esculpiu esta obra-prima. Incrível! O fato é que jamais esquecerei do dia em que estive diante desta obra inspiradora e, sem dúvida, obra de arte! Ou, como se diz em inglês de forma consistente e solene: a truly masterpiece!