sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Palhaço

   Era 11 de junho de 2010, uma sexta-feira. Na Europa, no meio do ano, e com o horário de verão, os dias clareavam muito cedo, e somente por volta das 21 ou 22 horas é que estava escuro. Com um tempo bom, podendo usar roupas leves, passamos o dia a conhecer monumentos, esculturas, museus, quadros, igrejas, praças e muito mais em Florença, uma das cidades mais belas que já pude visitar até agora. Parece que não sou o único a considerar esta uma das cidades mais belas, haja vista que existe até uma condição, conhecida por 'Síndrome de Florença', ou 'Síndrome de Stendhal' (ps: Stendhal era o pseudônimo de Henri-Marie Beyle, autor francês que escreveu O Vermelho e o Negro), em que, quando diante de uma beleza estonteante, suprema, podendo ser um lugar fechado com várias obras de arte, o que é mais frequente, ou uma beleza natural, o indivíduo pode apresentar níveis variáveis de angústia, confusão mental, despersonalização ou desrealização, ilusões ou alucinações e sintomas relacionados a pânico (taquicardia, tontura, falta de ar, sensação de medo de morrer, etc.). Esta condição recebe o nome de 'Síndrome de Stendhal' porque este apresentou tais sintomas ao visitar a cidade de Florença em 1817, principalmente quando de sua visita pela Basílica de Santa Croce, que é a principal igreja franciscana na cidade; nesta, estão enterrados Michelangelo, Maquiavel, Galileu e Rossini, entre outros. Isto que o autor sentiu está descrito em um de seus livros, chamado 'Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio', que é uma espécie de diário da jornada. Em 1989, uma psiquiatra italiana, chamada Graziella Mangherini, tendo observado tais sintomas em várias pessoas, principalmente que tinham visitado Florença pela primeira vez, e tendo catalogado 106 casos, descreveu e nomeou a síndrome. Em uma das classificações de transtornos mentais, o DSM-IV-TR (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), que foi publicada pela Associação Americana de Psiquiatria em 1994 e revisada em 2000, descreve que a referida síndrome pode ser alocada entre os 'transtornos ligados a cultura' (Culture-Bound Syndromes).

Vista da Piazzale Michelangelo, em Florença

Carol em Florença

Paisagem de Florença, vista da Piazzale Michelangelo

   No final da tarde daquele dia, percorremos um caminho longo mas que permitiu umas das vistas mais impressionantes que eu já pude presenciar; ver o sol se por sobre a Ponte Vecchio e o rio Arno, tudo lá do alto da Piazzale Michelangelo, é algo que eu tentaria descrever aqui mas sem jamais me aproximar do que vi de fato. É simplesmente fantástico! Confesso que não cheguei a apresentar sintomas que preenchessem os critérios da síndrome, mas a imagem daquele momento está muito viva na memória, e essa lembrança será eterna. Acontece que o que guardo com mais carinho daquele dia é o que pudemos presenciar voltando para o lugar onde estávamos hospedados; ao redor da Piazza della Signoria, já durante a noite (portanto deveria ser por volta das 21h e alguns minutos), paramos numa sorveteria para degustar os famosos e saborosos sorvetes italianos. Logo após recebermos os sorvetes, dirigimo-nos por uma rua que sai da praça, uma das principais no local, e começamos a ouvir o som de vozes que se amontoavam; risos vinham de uma das ruas que cruzavam essa principal. Ao cruzar por esta, havia uma roda de pessoas, um grande círculo que envolvia toda a rua, e, no meio, um palhaço que brincava com um dos integrantes da 'plateia'. Com a arquitetura antiga do local, as pessoas com roupas leves pelo clima ameno da época, não muito frio nem muito quente, com toda aquela estrutura de obras do passado, sem evidências muito exuberantes de qualquer tipo de tecnologia dos nossos tempos, ficamos a observar o palhaço, um homem de meia idade, brincando com as pessoas ao redor, com seu traje característico e não muito sofisticado, com toda aquela maquiagem e roupas coloridas, e me senti como se estivesse em um distante tempo no passado. O palhaço cativava a todos, e simplesmente não conseguíamos ir embora. Depois de alguns minutos, acabou os nossos sorvetes, observamos mais um pouco e fomos embora. Pela situação inusitada que trouxe uma alegria não esperada e por remeter a tempos muito distantes (bem como tudo o que há pela cidade), aquela foi a melhor recordação que guardo daquele dia.




   O termo 'palhaço' provavelmente vem do italiano omino di paglia (a palavra atual em italiano é pagliaccio), ou seja, 'homem de palha', referindo-se ao homem humilde que vinha do campo para a cidade grande e, em não encontrando emprego imediatamente, vivia pelas ruas bebendo até se embriagar (a espuma branca na boca seria representada pela parte branca da maquiagem ao redor da boca), caindo várias vezes (batendo o nariz, este ficava vermelho, representado pelo adereço vermelho no nariz), ganhando roupas dos outros, já que não tinham dinheiro para comprar, e estas eram ou muito curtas ou muito longas, com sapatos muito grandes, enfim, com peças desproporcionais entre si. Este termo de origem italiana refere-se mais ao indivíduo que se via em feiras e praças. Já o termo clown origina-se no século XVI e pode ter, inclusive, origem celta, relacionando-se mais ao indivíduo engraçado que anima plateias em circos. Apesar da origem diferente dos termos, o palhaço é o personagem que existiu, inicialmente, para entreter as pessoas, fazê-las rir, entre os principais números de um espetáculo; atualmente, é um personagem icônico e fundamental em qualquer circo, representando mesmo números específicos do espetáculo.
   Sempre que se pensa em palhaços, a referência é de alegria, animação, entretenimento, diversão, sorriso, etc.; mas é particularmente instigante que algumas vezes tem-se a ideia do palhaço como alguém que faz os outros rirem e escondem uma grande tristeza. Essa relação entre o indivíduo que anima a vida de outras pessoas mas que guarda um grande conflito em sua própria vida tem certo fundamento haja vista a origem do termo baseada na miséria e pobreza de algumas pessoas, como as que vinham do campo para a cidade grande tentar a vida.
   Algumas músicas de conotação mais séria foram compostas ao longo dos tempos; uma, em particular,  Send in the clowns, tem como tema justamente esta ideia do palhaço como aquele que entra em cena para entreter, animar nos intervalos de outros espetáculos, ou, como é o caso mais provavelmente, aquele que entra, simplesmente, para 'mudar o foco' de um lugar para outro. Em outras referências, o palhaço é aquele que entra em cena quando algo dá errado num espetáculo, na ideia, portanto, de algo para ludibriar e entreter a plateia no sentido de desviar o foco do que acabou de dar errado (é como alguém dizendo, quando há um erro não esperado em um determinado número do espetáculo, '- Depressa, que entrem os palhaços! Rápido... Rápido...'). É esta última a verdadeira significação desta fascinante música de Stephen Sondheim, de 1973; este a compôs para um musical chamado A Little Night Music (Uma pequena música noturna), que foi uma adaptação do filme Smiles of a Summer Night (no Brasil, Sorrisos de Uma Noite de Amor), de Ingmar Bergman. Não conheço este filme, mas a referência imediata do título do musical para mim é a belíssima peça homônima de Mozart (Eine Kleine Nachtmusik), que é tocante e muito conhecida. Bom, a música foi composta para a personagem Desirée, sendo uma balada para o segundo Ato do musical; no momento em que a música é executada, esta personagem reflete sobre as ironias e os desapontamentos em sua vida, sendo que uma das lembranças é um romance do passado com o advogado Fredrik, que se encontra com uma noiva mais jovem e se recusa a deixar esta para ficar com Desirée, que deseja se casar com ele para sair de suas lamentações. Como isto não ocorre, a personagem principal canta a referida canção. Segundo o compositor, Sondheim, na verdade a música trata dos tolos que somos todos nós, mas com a ideia já comentada de que, 'quando algo não ocorre conforme o desejo, ou conforme o previsto, que entrem os palhaços', ou seja, 'façamos as brincadeiras'... A referência aos palhaços foi escolhida por se tratar de um musical, e a personagem, sendo uma atriz, é remetida a um ambiente teatralizado, como é o circo. Por fim, esta belíssima canção merece tal lembrança e pequenos comentários porque insere a palavra 'palhaço' num contexto de alegria e nostalgia, ou tristeza, ao mesmo tempo, e isto tem muita semelhança com o personagem de Selton Mello no expressivo filme que irá representar o Brasil no Oscar do próximo ano. Deixo dois vídeos de duas versões da canção, sendo uma do grande Renato Russo (com legendas e belas imagens) e outra de Judy Collins (neste vídeo, percebe-se o paralelo dos paradoxos entre a melancolia da canção com a alegria dos palhaços que brincam durante a execução). São versões para recordação e reflexão... Muito envolventes!





 
   Antes de assistir definitivamente ao filme do Selton Mello, confesso que parei na primeira tentativa com poucos minutos de execução. Sempre tive um certo receio de que filmes que tenham por volta de 90 minutos de duração possam ter um enredo envolvente e bem desenvolvido (exceto para o caso de filmes de animação, os chamados 'filmes infantis'), e o filme O Palhaço tem por volta de 90 minutos de duração. Várias vezes gosto de não ter me afeiçoado a um filme, ou um livro, ou uma música quando entro em contato com eles pela primeira vez, porque acabo pesquisando mais sobre os mesmos e me interessando, me envolvendo com o conteúdo que vou acumulando, e aí estes passam a fazer muito sentido. Este foi o caso do filme quando, lendo a respeito, vi algumas resenhas em que se tratava de 'alguém querendo se encontrar', e isto é uma metáfora para a vida de todos nós, sem exceção. O filme conta a estória de um palhaço que nasceu e viveu boa parte de sua vida num circo mambembe dos anos 70 e sente muito por não se encontrar com aquilo que faz da vida; por um lado, é como um dos comentários que fiz sobre os palhaços anteriormente em que eles existem para fazer os outros rirem mas que podem guardar, no fundo, um grande conflito (e assim é com muitas outras profissões ou 'vocações' mutáveis que se percebem em muitas vidas por este mundo). Isto é muito atraente para se desenvolver uma discussão sobre a vida, porque é o paradoxo da alegria e da tristeza, que na verdade são apenas dois extremos da mesma coisa, e precisamos compreender bem uma delas para valorizar muito a outra; é assim com as emoções em geral.


 

   O filme é desenvolvido em cenas curtas, e, em boa parte do mesmo, o palhaço Pangaré (personagem do Selton) fala poucas coisas, e de forma fria, seca, expressando o que se passa no fundo de sua alma; assim, vai procurando uma identidade, apresentando-se, sempre, apenas com uma Certidão de Nascimento mal guardada, amassada, ilegível, como fora sua vida até então. O bom do filme, que é de certa forma nostálgico na belíssima fotografia (com tons alaranjados, um sépia sutil) e na trilha sonora, é que os personagens têm todos seus conflitos, se ajudam em despesas mútuas (como uma família faz), ora se regozijam com a vida que levam, ora lamentam não poderem ter tido outras oportunidades, e vão passando por várias cidades, como se a experiência pela vida, jogar-se pelo mundo, os ajudasse a se encontrarem; e é justamente isto que faz o Pangaré, que lamenta fazer os outros rirem mas não ter ninguém para fazê-lo rir em boa parte do filme. Ao longo dos caminhos percorridos, das pessoas que são encontradas, com o filme em enquadramentos geométricos e se apresentando na grande maiorias das vezes como se houvesse um palco (aquele que se apresenta) e uma plateia (aquela que assiste), com este enquadramento e o movimento da câmera deixando isto muito claro, o personagem principal vai aprendendo por poucas palavras, mas realmente entende quando se afasta do que mais o estava atormentando e se joga em um outro mundo (só como detalhe, a cidade que Benjamin Savalla Gomes, que aliás é uma sutil homenagem ao palhaço Carequinha, que se chamava George Savalla Gomes, não mais o palhaço Pangaré, procura para morar e tentar se encontrar é Passos, em Minas Gerais, que é a cidade-natal de Selton Mello, apesar de este ter dito em entrevistas que não se trata de um filme autobiográfico).



 


 

   O filme tem cenas muito elaboradas de humor verbal, com muitos personagens caricaturais. Moacyr Franco no papel do delegado leva o filme a um êxtase de humor sem igual (assista abaixo), e preste atenção que é como se o enquadramento nele remetesse a um palco e o enquadramento nos detidos remetesse a uma plateia (o filme tem muitas cenas assim, como já comentado). O Zé Bonitinho é o personagem que, longe no filme, faz Benjamin realmente rir, e ele se descobre feliz, de repente, onde antes estava tentando se encontrar. Detalhe ainda para o personagem louco de Tonico Pereira e para o personagem nostálgico de Jackson Antunes, que aliás apresenta um ensinamento como que levantado do chão (ele vive num lugar altamente apocalíptico, degradado pelo tempo, como foi sua vida de ressentimentos e melancolia, mas diz uma frase que é simples e capaz de mudar o rumo de Benjamin mais adiante no filme, qual seja: 'O gato bebe leite; o rato come queijo. E eu? Eu toco meu trabalho', dizendo, assim, que cada um deve fazer o que sabe fazer).


 
 
   Sendo um filme que materializa em 90 minutos uma profunda busca pelo sentido da vida, pela busca de uma identidade, é magistral no conjunto e tocante principalmente em seu final, quando vemos que, diante de toda a miséria de bens no meio em que vivem, a riqueza das pessoas e da convicção de estarem fazendo aquilo de que gostam e trabalhando naquilo em que acreditam é uma alegoria sem igual da beleza da vida. E no último suspiro da vida, fecha-se um ciclo, com a garotinha vivida por Larissa Manoela tendo se identificado com o que Benjamin encontra em sua busca pelo referido sentido; inicia-se, assim, uma vida que será parecida com a do palhaço, e com uma alegria contagiante, que por meio de crianças, se traduz num sorriso (e numa expressão que remete a um sonho vívido, somente por elas compreendido), que é a essência daquilo que faz um palhaço para colorir um pouco nossas vidas.
   Para que não haja a ideia somente do palhaço trágico, até porque o filme tem um fim que se assemelha mais a uma felicidade sutil do que a uma nostalgia profunda, deixo uma música do maior letrista do Brasil, Chico Buarque, que expressa o valor que se deve dar a todos esses seres que inspiram criatividade e buscam preencher algumas lacunas de tristeza em nossas vidas, ainda que vistos como uma esfera inferior da sociedade; Mambembe é primorosa! Boa semana a todos.