quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Impressão, Sol Nascente


   Há muito que as paisagens fascinam o imaginário humano, principalmente porque são objetos de contemplação que existem naturalmente nos diversos lugares pelo planeta. Não há necessidade de intervenção do homem para que se tornem belas ou harmoniosas; muito pelo contrário, a nossa interferência na grande maioria das vezes torna o panorama em algo, no mínimo, disforme. Em especial, as paisagens noturnas e as que ocorrem no instante fugaz do nascer e do por do sol são as que mais geram sensações de felicidade extrema, e são momentos que podem jamais voltar à vida de cada um de nós de forma semelhante a como pareceu um dia. Em particular, durante o nascer do sol e o por do sol, aparecem cores no céu que são difíceis de nomear na linguagem humana; existem cores que lá aparecem que podem nunca terem sido descritas. 
   Existem dois exemplos de paisagem celeste que foram magistralmente apresentados em dois grandes filmes. O primeiro, romântico por excelência, o apresentou em uma das cenas mais romanescas em toda a história do cinema. Na cena de Titanic em que o casal Jack e Rose se encontra na proa do navio, sob uma versão esplêndida de My Heart Will Go On, inicialmente ao piano, durante o entardecer (o último que um deles veria), o céu aparece como uma paleta de cores tão deslumbrante que parece não ser real... É uma das cenas mais marcantes do cinema! Obviamente, o filme foi amplamente reconhecido pela Academia!


Filme Titanic, cena da proa do navio!





   O segundo filme, Vanilla Sky, de 2001, tem o título baseado numa obra do artista plástico Oscar-Claude Monet, intitulada The Seine at Argenteuil (ou O Sena em Argenteuil), de 1873. Apesar do filme ser uma regravação de um filme espanhol de 1997, chamado Abre Los Ojos (Open Your Eyes), o título da versão americana faz alusão ao céu marcante e onírico do quadro específico citado (mas que é observado em várias das obras do artista) e que, no filme, é justamente a conexão entre o que parece ser real e o que parece ser somente um sonho, e é esta a temática que recheia toda a duração desta belíssima película. A cena final, no alto de um prédio, tem um céu tão espetacular que, da mesma forma como comentado anteriormente, é difícil descrever quantas cores existem acima! É altamente fascinante e comovente, e parece trazer uma calma perseguida durante todo o filme pelo personagem de Tom Cruise (David Aames), mas somente alcançada no final do filme, como se fizesse tudo fazer sentido!


The Seine at Argenteuil, de Monet (1873)


Cena final de Vanilla Sky

Cena final de Vanilla Sky

Cena no início do sonho lúcido, em Vanilla Sky




   
   O 'céu de baunilha' de Monet é algo espetacular, sendo difícil acreditar que pudesse ser representado por alguém em uma tela; mas basta observar outras de suas obras para perceber a importância que ele dava às cores, havendo sempre uma apresentação perfeita das cores no céu e da luminosidade sobre os personagens representados. Foi tão marcante para mim que a partir de então passei a analisar com mais calma e mais cuidado as diversas cores no céu em vários momentos subsequentes, tanto quanto possível; além disto, tornei-me grande apreciador da obra do artista, e era muito interessante perceber a harmonia existente na maioria de seus quadros, representando o efêmero de forma tão perfeita, como uma foto de um momento único do dia, que pode nunca mais ser visto... Além do que, a paz transmitida alivia qualquer alma!


The Bridge at Argenteuil, de Monet (1874)

The Artist's House At Argenteuil, de Monet (1873)

Poppies at Argenteuil, de Monet (1873)

Argenteuil, Late Afternoon, de Monet (1872)

Regatta at Argenteuil, de Monet (1872)

Madame Monet and Her Son, de Monet (1875)

Cliffs and Sailboats at Pourville, de Monet (1882)

Hôtel de Roches Noires, Trouville, de Monet (1870)

   Em junho de 2010, estivemos na França, eu e Carol, e pudemos entender um pouco de onde surgia tanta inspiração para a criação da obra de Monet. Visitamos sua casa, na cidade de Giverny, que fica a 80 km de Paris, e que contém os belíssimos jardins na chamada 'casa de Monet'. Os jardins são tão inacreditáveis que existem centenas de espécies de flores, as sublimes ninfeias que tanto fascinavam o artista, as sutis pontes japonesas e é difícil caminhar e completar todo o circuito porque a caminhada flui muito lentamente, sendo difícil não ir tirando foto de cada flor, cada detalhe dos jardins, dos lagos, das paisagens, etc.. E tudo por lá é tão bem preservado, bem cuidado, que comove cada um de nós, ao mesmo tempo que nos convida a observar cada sutil nuance da beleza do lugar. A pequena cidade tem menos de 600 habitantes, quase que somente uma rua, comporta ainda o Museu dos Impressionistas e uma igreja da Idade Média que abriga o túmulo do artista. É um lugar que deixa muitas boas lembranças e parece apresentar a felicidade como presente nas pequenas coisas...


Jardim de Monet


Jardim de Monet


Jardim de Monet


Carol na Ponte Japonesa


Ponte Japonesa


Jardim de Monet


Jardim no Museu dos Impressionistas


   Mas dentre todos as grandiosas telas do artista, a que mais me chamou a atenção desde o primeiro momento foi, sem dúvida, Impressão, Sol Nascente (Impression, Sunrise; no original: Impression, soleil levant). Datada de 1872, o quadro representa o porto de Le Havre, na França, e apresenta uma característica um tanto pioneira de pinceladas soltas que mais sugerem do que delimitam os diversos objetos na paisagem. Apresentado na amostra que daria origem ao movimento dos Impressionistas, em 1874, não tinha ainda o título que o consagrou quando foi enviado para esta exposição; quando perguntado sobre que título deveria ser colocado, Monet explicou o mesmo da seguinte forma: 'paisagem não é mais do que uma impressão, e uma impressão instantânea; eu tinha enviado algo que havia pintado observando a janela do meu quarto em Le Havre, com o sol na névoa e uns barcos com mastros apontando para cima em primeiro plano... Pediram-me que desse um título; eu disse: - coloque Impressão'. Inspirado pelo nome da tela, e pela comoção causada nele ao contemplá-la na exposição, o crítico Louis Leroy escreveu sobre esta amostra no jornal Le Charivari, tendo intitulado a crítica de 'A Exibição dos Impressionistas', e, assim, inadvertidamente, nomeado o movimento que surgia a partir de então. Ele escreveu: 'Impressão - Eu estava certo disto! Eu dizia para mim mesmo que, como eu estava impressionado, deveria haver alguma impressão nele... Que liberdade! Que felicidade de trabalho humano! Um papel de parede em seu estado embrionário é mais acabado que aquela paisagem marinha!' Assim, Monet ganhava o mundo, e entraria para a história como a essência do Impressionismo!


Impressão, Sol Nascente, de Monet (1872)


   Oscar-Claude Monet nasceu em 14 de novembro de 1840, em Paris, e mudou-se para Le Havre, na Normandia, aos 5 anos com sua família; inicialmente, deveria cuidar dos negócios com seu pai (ramo de Mercearia), mas preferiu, desde cedo, dedicar-se a ser um artista. Aos 11 anos de idade, entrou na Escola Secundária de Artes de Le Havre, mas foi somente com 16 anos que, pelas praias da Normandia, conheceu seu mentor Eugène Boudin, que o ensinou a criar telas ao ar livre ('ein plein air'). Pouco após a morte de sua mãe, em 1857, ele voltou para Paris. Nesta cidade, conheceu inicialmente Édouard Manet, e, após ter passado a fazer parte das aulas com o professor Charles Gleyre, um artista plástico suíço que vivia em Paris e influenciou parte da geração de Impressionistas, Monet conheceu outros artistas que fariam história nesta corrente, quais sejam Pierre-Auguste Renoir, Frédéric Bazille e Alfred Sisley. Juntos, estes artistas compartilharam novos estilos de pintura, caracterizados essencialmente por cores interrompidas e pinceladas rápidas dos efeitos da luz ao ar livre, o que posteriormente se consolidou como o Impressionismo. Casou-se com Camille Doncieux em 1870 pouco antes do desencadeamento da Guerra Franco-Prussiana, que o obrigou a fugir para a Inglaterra e, posteriormente, Holanda. Voltou à França em 1871 e, até 1878, viveu em Argenteuil, cidade em que pintou boa parte de suas melhores obras. Camille faleceu em 1879 de complicações decorrentes de tuberculose e Monet passou os últimos dias de sua vida em Giverny, onde pintou a maioria de suas obras do final do século XIX e início do século XX. Por volta de 1914, passou a apresentar sintomas de catarata e, após correção cirúrgica desta, passou a visualizar uma tonalidade violeta em muitas paisagens e flores onde esta cor não existe de fato, e suas ninfeias azuis, por exemplo, ganharam uma tonalidade mais escura devido a este fato (as obras são belíssimas). Monet faleceu em 5 de dezembro de 1926, aos 86 anos, de complicações de câncer de pulmão.


Oscar-Claude Monet

Pierre-Auguste Renoir

Charles Gleyre

Alfred Sisley

Frédéric Bazille
Édouard Manet


   Este quadro de Monet tem sido considerado, ao longo dos anos, um símbolo quintessencial do Movimento Impressionista. O quadro, representando uma visão do porto de Le Havre, no noroeste da França, é considerada uma das mais poéticas expressões do artista no engagamento com a revitalização do país após a Guerra Franco-Prussiana, que, apesar de ter durado somente um ano, foi suficiente para levar à derrota francesa e pôr fim ao Império de Napoleão III, que teve que devolver o território da Alsácia-Lorena para o Reino da Prússia. Os desfechos da guerra para a França foram muito mais profundos, tendo levado a um dano substancial do ponto de vista social e moral. Impressão, Sol Nascente enfatiza fortemente a determinação francesa em reconstruir e se recuperar da devastação da guerra; a partir da década de 1850, o porto de Le Havre cresceu paulatinamente até se tornar o segundo maior do país - a inclusão de alguns barcos maiores na tela corroboram tal fato. Este crescimento estagnou durante a guerra e voltou a se reerguer na década de 1870, época em que foi representada por Monet; percebe-se um testemunho da recuperação pós-guerra ao se optar por representar este porto em uma tela naquela época. A nebulosidade observada ao fundo se deve não somente às brumas da manhã no canal, mas também às emissões produzidas pelas fábricas e pelos navios a vapor. A maquinaria pesada perceptível na obra de arte era parte de um projeto de construção que foi retomado após o armistício assinado entre a França e a Prússia. Esta representação na cena pode ser interpretada como uma fonte de inspiração para o povo francês ressurgido. 
   Impressão, Sol Nascente apresenta um enfoque sobre o sentimento acerca de uma calma cena marítima enevoada. A tela restitui o sentimento de algo efêmero unido a uma determinada hora da manhã, não definida, em que a fumaça contamina a cor das nuvens e os mastros se tingem com as cores da água. Pela primeira vez, um artista plástico transcreveu mais por sinais do que por imagens. A presença humana é apenas intuída (os pescadores, no centro e mais abaixo na tela, mais próximo ao espectador, são representados de modo esquemático, com eles a remar em suas embarcações, muitos dos quais não sendo mais do que pinceladas soltas; somente o timoneiro surge com mais detalhes). O sol é destacado graças à intensidade cromática que Monet imprime a este elemento, adicionando zarcão e amarelo ao laranja primitivo; além da cor, as pinceladas criam um volume que permite delimitar com perfeição a esfera solar, e a névoa que permeia a tela impede que a irradiação distorça a esfera (o sol parece ser o único elemento na tela que tem uma forma bem definida). Os reflexos do sol na água se limitam a uma estreita faixa, feita com pinceladas horizontais de cor laranja que vão se espaçando à medida que se aproximam do observador; os raios do sol, por outro lado, parecem impregnar todo o céu com tonalidades amarelo-alaranjadas. A embarcação situada ao centro da tela, único elemento da tela não coberto pela névoa, funciona para criar perspectiva, posicionando os outros dois barcos, por intuição, atrás dela; juntos, criam uma diagonal que confere profundidade à tela. O artista cria uma bruma que envolve quase toda a tela à base de cinzas fundidas com pinceladas de malva que aplica em pinceladas largas e soltas; trata-se mais de sugerir a presença da bruma do que transmitir uma presença real dentro da tela - em certas zonas se intui, além disto, o fundo branco, o que dota o conjunto de luminosidade.
   Por ser considerada a obra de arte que deu origem ao Movimento Impressionista, podem ser observados claramente alguns detalhes específicos desta tela que fazem alusão ao estilo. Uma característica importante da pintura impressionista é o tipo de pincelada utilizada; movimentos curtos e grossos de tinta são aplicadas à tela para capturar rapidamente a essência do assunto; as pinceladas visíveis na água de Impressão, Sol Nascente criam uma sensação de ritmo que reflete a impressão de movimento do mar. Outra característica da pintura impressionista é a aplicação de cores distintas lado a lado, e o olho do espectador as mistura automaticamente - esta técnica é evidente nas porções do céu e da água neste quadro. Por fim, os artistas impressionistas dão uma forte ênfase à luz natural, e isto é muito evidente na obra de Monet; em Impressão, Sol Nascente, observa-se o belo trabalho da reflexão da luz solar. A reputação do artista como pintor envolve amplamente o reconhecimento deste efeito, e Monet é o incomparável pintor da luz.
   Ao longo destes dois séculos, as pessoas têm estado certas de que Impressão, Sol Nascente foi a obra-prima que inspirou um dos maiores movimentos da arte: o Impressionismo. Entretanto, alguns estudiosos têm especulado recentemente que este talvez não tenha sido o quadro que inspirou o movimento de fato. Estes pesquisadores da arte afirmam que a descrição dos críticos presentes à exposição naquela época não são compatíveis com esta tela, mas com uma outra: Sunrise (Marine). Este quadro parece ter sido criado por volta da primavera de 1873, o que o coloca próximo a Impressão, Sol Nascente em termos de época de criação. Parece que o alvo das palavras de Louis Leroy, aquele crítico do jornal Le Charivari, foi confundido por todo esse tempo, e que sempre foi Sunrise (Marine); esses estudiosos afirmam que este quadro foi aquele exposto na primeira exibição dos impressionistas, em 1874, enquanto Impressão, Sol Nascente, teria sido exibido somente em 1879, na quarta exposição dos artistas. Eles afirmam, também, que Impressão, Sol Nascente não retrata um sol nascendo, mas um sol se pondo, o que poderia ser denunciado pelo aspecto da névoa; já Sunrise (Marine) claramente apresentaria um sol nascendo, e corresponderia à descrição do jornal e dos críticos da época. 


Sunrise (Marine), de Monet (1873)


   Embora não se saiba o real teor do poder do movimento à época em que surgiu, o fato é que, atualmente, não existe qualquer dúvida quanto ao grande impacto que o Impressionismo teve no mundo da arte. O pincel que Monet eternizou em seus quadros o tornou o chefe do movimento e é responsável por muito da notoriedade e do sucesso do grupo. Sua obra-prima, Impressão, Sol Nascente, com somente 48x63 cm, e que descansa no Museu Marmottan, em Paris (França), foi a vanguarda da expressão de uma percepção da natureza e que se tornaria a essência do Impressionismo. A abordagem do artista para pintar os sentimentos emitidos por uma cena, em vez de detalhes exatos, abriu caminho para avanços na técnica que levaram à evolução da arte moderna. Não se consegue não sentir a expressão de um sentimento de calma e tranquilidade nos quadros de Monet, e Impressão, Sol Nascente é, há muito, a expressão de um momento sublime e o meu retrato preferido deste imenso artista! Uma boa semana a todos!