sábado, 15 de setembro de 2012

A Noite Estrelada (Starry Night)


   Muitas pessoas passam por este mundo de forma avassaladora, vivendo suas vidas de forma muito intensa, mesmo que muito introspectivamente. O grande artista plástico holandês Vincent Willem van Gogh (1853-1890) ficou muito famoso postumamente por sua originalidade nas pinceladas pós-impressionistas; o seu amarelo (cor que sempre o fascinou) e o seu azul são simplesmente indescritíveis em palavras; diria que são imediatamente cativantes. Nos últimos anos de sua vida, pintou uma das telas mais impressionantes de todos os tempos, em minha humilde e modesta opinião: A Noite Estrelada (Starry Night), 1889. É um quadro tão onírico que é impossível alguém o contemplar sem querer tentar descobrir o que se expressa com tamanha originalidade, jogo de cores e pinceladas com traços ondulados e retificados em contraste. 
   
Starry Night, 1889

   Esta tela tem 73 x 92 cm em seu formato original e se encontra no Metropolitan Museum of Modern Art, New York (USA). Foi pintada no penúltimo ano de vida do artista, que se encontrava num sanatório em Saint-Rémy-de-Provence (França), onde se internou voluntariamente. Esta cena representa uma possível visão que tinha desta localidade. Um fato curioso é que van Gogh sempre pintou observando a natureza diretamente, enquanto esta obra foi desenvolvida com dados de memória, e não contemplando a natureza diretamente, daí as referências místicas a que remete o fabuloso céu representado. Dizem que ele certa vez comentou: 'Eu confesso não saber a razão, mas olhar as estrelas sempre me faz sonhar', o que demonstra o fascínio que a noite exercia sobre sua mente atordoada; o seu espírito tinha necessidade do religioso, e suas crises de depressão no final da vida levaram suas telas a apresentar um novo caráter, com temas noturnos. 

Cafe Terrace at the Night, 1888
   Em Arles (França), em 1888, portanto um ano antes, pintou duas outras telas primorosas com o tema noturno: Terraço do café na praça do Fórum (Cafe Terrace at the Night) e Noite estrelada sobre o Ródano (Starry Night over the Rhone), estes apresentando uma fusão da natureza com um aspecto não evidente em A Noite Estrelada, que são a presença humana na imagem. As estrelas e a tensão amarelo x azul sempre estiveram no cerne da obra desse grande artista.

Starry Night over the Rhone, 1888
  É possível que van Gogh acreditasse que A Noite Estrelada fosse capaz de satisfazer Paul Gauguin (1848-1903) porque era mais artificial e se afastava de sua realidade; mas, Vincent, diz-se, não estava satisfeito com a obra porque nunca se sentia contente com pinturas que o aproximavam daquele outro artista... Mas, isto é uma ironia, porque esta belíssima obra foi um marco na carreira do eterno van Gogh
   A tela é tão absorvente e forte que transmite uma sensação brilhante e apagada ao mesmo tempo, com estrelas similares ao sol. As estrelas, que são onze no total (acredita-se até que tenha referência com a Bíblia, no Gênesis 37:9, que relata a história de José - 'Ele teve ainda outro sonho, que contou a seus irmãos. Ele disse: "Tive ainda outro sonho: pareceu-me que o sol, a lua e onze estrelas se prostravam diante de mim."'), definem-se por seu brilho, submergindo num redemoinho de intensa luz, obtido com pinceladas amarelas e brancas, gerando uma sensação de que as estrelas oscilam num firmamento tingido de azul; alguns dizem se tratar da constelação da Ursa Maior. A lua, com a forma de um desproporcional e imperfeito quarto minguante alaranjado, surge fora do centro, em meio a um intenso resplendor, que se estende pela tela como ondas; isto transmite uma sensação de liquefação à tela. O elemento central em espiral gigantesco no firmamento cria uma sensação de vertigem sufocante e ameaçadora; por meio dessas espirais repletas de traços luminosos, acredita-se que o artista tenha criado uma representação estilizada da Via Láctea. O povoado, pequeno, intimidado e próximo do espectador, ocupa o terço inferior da tela; poucas pinceladas em amarelo indicam que há luzes acesas no interior das casas, como que uma humilde resposta à apoteose de luz do céu estrelado; somente o pináculo da torre da igreja surge como um desafiante e, ao mesmo tempo, frágil vínculo entre o céu e o homem. O vale de Saint-Rémy-de-Provence é representado recebendo uma gama de azuis combinados, com tons escuros e reflexos. À direita, sob o luar, alguns reflexos dourados indicam a presença de um milharal. À esquerda, a monumental e escura silhueta dos flamejantes ciprestes em verde, vermelho e manchados de amarelo contrapõem-se à luminosidade do céu e proporcionam, exceto pela sinuosidade de suas linhas, um senso de controle, de eternidade, e criam um efeito de profundidade. Perfeito!
   Num grande exercício de imaginação, um internauta tentou representar que imagem real pode ter influenciado o artista naquela noite. Esta criação é incrivelmente transcendental, arrebatadora.

Starry Night tribute, by The Professor
  Sensações as mais diversas são plenamente possíveis ao se observar esta grande obra deste imortal artista, atormentado durante sua vida e que somente vendeu um quadro enquanto corpo vivo; enquanto alma, espalhou-se pelo mundo e sedimentou culturalmente toda a sua época para a posteridade. Inspirou artistas em várias formas de expressão; na música, o cantor e compositor americano Don McLean, inspirado na tela, escreveu e musicou a belíssima canção Starry Starry Night.


   Enfim, é uma obra que é capaz de levar inspiração para muitas formas de arte, sendo ao mesmo tempo representativa de um momento muito sublime e particular altamente íntimo na mente de uma pessoa capaz de observar com respeito, calma, tenacidade e amor a beleza da natureza, altamente introspectivo, mas que transcende para o eterno, para algo grande, amplo, externo, como é o céu, suas estrelas e a lua. Como influência onírica, e transmitindo uma sensação de movimento em seus traços ondulados, em minhas pesquisas pela internet, descobri um programa para iPad que tem esta obra com uma música de fundo (podendo ser escolhida entre três possibilidades) com os traços em movimento, dando uma sensação de vida à tela sem igual, e que é interativa, permitindo algumas modificações interessantes no sentido do movimento e que dão um efeito indescritível; vocês precisam ver. Deixo o vídeo abaixo que demonstra o programa. Incrível! Boa noite a todos, e que este quadro possa inspirar vocês em seus sonhos como inspira a mim.




   
   
 





2 comentários:

  1. Parabéns pelo excelente texto muito bem escrito com competência e esmero! Não por acaso é uma de minhas obras favoritas e por agradável coincidência minha proteção de tela no iPhone, como sabes...Hehe. Entretanto não sabia de todos esses detalhes e achei muito interessante a passagem bíblica de Gênesis, que certamente exerceu influência sobre o "Imaginário Van Ghoniano"... Forte Abraço e obrigado pela dica do iPad, certamente usarei
    para ninar minha filha!

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    1. É uma menina? Meus parabéns, Leandro! Estou muito feliz por você! Forte abraço e obrigado pelo comentário!

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