domingo, 9 de setembro de 2012

Intocáveis (Intouchables)

   O filósofo francês Louis Lavelle, em seu livro O Erro de Narciso, dedica um capítulo a vocação e destino; na primeira parte deste capítulo, ele faz uma bela análise da diferença entre os espíritos. Segundo ele, "é difícil harmonizar extensão e profundidade. Alguns só têm olhos para o espetáculo do mundo, têm necessidade que ele se renove indefinidamente sob seus olhares e admiram, sem fatigar-se, com a sua variedade e novidade. Porém têm com ele somente um contato superficial: é suficiente que o mundo mantenha a sua curiosidade acordada e povoe de imagens os seus espíritos, que somente procuram escapar da solidão. Outros permanecem sempre no mesmo lugar. Atêm-se sem cessar aos mesmos pensamentos, cavam indefinidamente o solo onde nasceram e ao qual permanecem ligados. Desviam-se das planícies que o sol ilumina e que a chuva rega e procuram, no lugar onde estão, uma fonte subterrânea na qual possam beber. Como é difícil e como seria desejável poder reunir a extensão e a profundidade, seguir todos os caminhos onde a vida nos coloca sem nos afastar jamais do ponto onde ela surge." 

   O filme francês Intocáveis, que tem a maior bilheteria da história do cinema francês, é um filme maravilhoso. Apesar do apelo a que os personagens possam remeter ao se saber de suas posições, este é um filme em que predomina o tema extensão (no sentido de superficialidade) sobre a profundidade. É um filme que consegue ser cativante sem ser melodramático demais, senda que poderia ser seguida facilmente em películas como esta. Assim, não deve ser encarado como um filme com profundo engajamento social. Retrata mais a tensão necessária entre os opostos em nossas vidas do que a solidão e sofrimento que pode decorrer de ironias que recheiam estas vivências.
   Inspirado em fatos reais, retrata a tragédia na vida do bilionário Philippe Pozzo di Borgo, que, ao sofrer um acidente de parapente, torna-se tetraplégico, com necessidade de cuidados em tempo integral em sua mansão que mais parece um palácio, e a amizade dele com o argelino Abdel Yasmin Sellou. Inspirado nestas memórias, o rico Philippe (François Cluzet) está procurando alguém para cuidar dele em sua residência, e acaba contratando o ex-presidiário Driss (Omar Sy), um imigrante senegalês que vive na periferia de Paris com meios-irmãos e uma tia. O filme tem uma forte temática de comédia, não raro extraindo fortes gargalhadas de quem o assiste, apesar dos temas que poderiam seguir, como já comentado, por caminhos mais penosos. Isto é mérito dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano, que criaram um roteiro em que o que importa é a relação entre os dois personagens principais, e não a profundidade dessa relação, no mais puro sentido filosófico budista, em que a percepção das coisas deve ser mais importante do que a concepcão que se faz delas, ou seja, não deve haver julgamentos. 


   Muitíssimo interessante no filme é a constante interseção das qualidades opostas, como que remetendo a um equilíbrio tão necessário em nossas vidas. Assim, um dos dois personagens principais é branco, o outro é negro, um acha que música de verdade é a erudita, a clássica, o outro acha que música de verdade é aquela em que se dança, um é mais clássico, o outro mais moderno, um admira arte abstrata, o outro não entende como se paga tão caro por esta arte sem valor. E o que é interessante no filme é que Driss está sempre brincando com as situações, no mais puro deboche, muitas vezes até de forma inocente, e isto é o que procura Philippe, ou seja, alguém que o trate bem ou mal, mas não por causa de sua deficiência. No início do filme, muitos pseudo-humanistas vão em busca do emprego, mas justamente o que não o procurava, o Driss, é quem é convidado a ficar com ele. 
   As reflexões sobre os temas do filme são muitas: seria o filme sobre amizade, sobre inocência, sobre servidão, sobre companheirismo, sobre reaprendizado, sobre bondade? As visões podem ser muitas. O fato é que a fotografia e, principalmente, a trilha sonora são impecáveis. Várias cenas no filme são, como se poderia dizer, emblemáticas: uma das mais bonitas é quando Driss é apresentado à casa antes de começar a trabalhar e entra no banheiro do seu quarto - tudo é branco, brilhante, e toca uma das passagens mais bonitas da Ave Maria de Schubert. Esplêndido! As cenas das músicas do Earth, Wind and Fire também são primorosas, tanto a cena inicial, com September, quanto a cena em que Driss dança no aniversário de Philippe ao som de Boogie Wonderland. São cenas contagiantes. As cenas com o mar, mais para o final, são indescritíveis.
   As cenas hilárias são constantes ao longo de toda a película, e a que mais me fez rir foi quando, ao assistir a uma ópera (Der Freischütz, o Franco-Atirador) de Carl Maria Von Weber, famoso compositor alemão, Driss começa a rir de forma escandalosa no teatro, e Philippe ri junto, quando um dos cantores começa a atuar no papel de uma árvore; maior risada vem quando Driss descobre que a ópera vai durar 4 horas. Demais! 
   Apesar de pertencerem a mundos diferentes, em um momento, na primeira metade do filme ainda, aparece Driss em seu bairro fumando com uns colegas, mas parecendo meio destacado do meio, como se ele não tivesse vivido uma vida frívola e descuidada, guardando um conflito com sua família que ele descreve melhor em um momento posterior do filme, e esta cena mostra que os dois personagens principais vivem dois espectros da mesma solidão. Mas, não é por aí que o filme se desenvolve, como já comentado.
   Enfim, é um filme estupendo e que merece ser visto, comprado e revisto várias vezes. Tem uma reverberação em nós que faz realçar um sentimento de amizade e bondade que deve estar sempre em alta em nossas motivações. O Oscar Francês, o César, premiou Omar Sy como melhor ator este ano, ganhando de Jean Dujardin, do muito premiado filme O Artista. E, como a ideia é sempre acrescentar algo, deixo um vídeo de uma dupla de orientais que se denomina Our Rendition no YouTube cantando September, do Earth, Wind and Fire, em uma bela versão acústica. Um abraço a todos.